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quinta-feira, 24 de maio de 2018

O destino existe? Como lidar com o acaso?

Será o destino? Vidas que se cruzam. Caminhos a passar. O que o destino me reserva? Sorte ou azar? Enfim... Ao divagarmos sobre o destino, transitamos por um caminho desconhecido perante nossa falta de percepção da vida.

O que dizer então do acaso? Algo que ocorre sem intenção prévia. Podemos afirmar que no caminho para o destino nos deparamos em vários momentos com o acaso? Ao aceitarmos essa hipótese um debate se estabelece. Como explicar se o que ocorre em nossas vidas ocorre por sorte ou por azar? Ou ainda, ocorrem ou ocorreram em função do destino ou ao acaso? Seja o que for o que está feito, feito está, mas o que ainda está por acorrer, quem sabe por um acaso possamos intervir em nosso destino. Sabe o que é mais assustador? É saber que a única coisa certa em nosso destino é o fim ou o começo para quem acredita.

Fernando Pessoa escreveu sobre o destino: “Segue o teu destino. Rega as tuas plantas. Ama as tuas rosas. O resto é à sombra de árvores alheias”. Tem um mundo de interpretações nessas frases, que encara o destino como algo inerente a cada ser humano, não antes de chamar a atenção para que sempre reguemos nossas plantas e amemos as rosas, ou bem que poderiam ser flores amarelas do campo. O resto meu caro e minha cara são árvores alheias, que se não lhe pertencerem, estarão margeando seus destinos. 

Segundo a Profa. Salete de Oliveira Buffoni, a Teoria do Caos propõe uma ideia de destino. “Em termos filosóficos, podemos dizer que o destino existe, mas nós o modificamos toda vez que fazemos determinadas escolhas que vão influenciar o futuro”. Cada uma dessas escolhas se conscientes, poderão produzir efeitos mais ou menos previstos, mas se forem ao acaso, os efeitos poderão ser catastróficos em nossas vidas, tanto de ação-reação, como principalmente de causa e efeito.

Nunca no Brasil (vi esse termo certa vez espetado num lindo jardim) quero viver de escolhas ao acaso, embora nem sempre tenha certeza disso. Se o destino colaborar, gostaria que minhas escolhas fossem sempre conscientes, pois quero ter a esperança de revisar meus erros, de refazer caminhos e principalmente de me refazer sempre que a vida me botar numa encruzilhada. Jamais imponho a minha verdade como única e absoluta. Toda vez que minha dita verdade, comandada normalmente pela minha cabeça, quer prevalecer, recorro à voz que vem do coração. Por isso sou emoção.

Estou convencido de que escolher é muito mais fácil do que ser escolhido, porque quando escolhemos e sofremos as consequências dos revezes da vida, as frustrações são sós nossas, mas quando somos escolhidos e frustramos as pessoas que nos escolheram, por certo ficaremos para sempre com o estigma e o ônus do Pequeno Príncipe.

Ainda nessa linha, Clarice Lispector escreveu: “Decifra-me, mas não me conclua. Eu posso te surpreender...” Uma frase enigmática que provoca o presente e inquieta o futuro. Fiquei pensando vários dias nessa frase. O que será que se passava na cabeça dela quando escreveu? Seria uma provocação ou uma desilusão? Ou ainda as duas juntas? Uma frase que expressa em seu universo: Fim, dúvidas, mas quem sabe uma possibilidade...

Algo hoje nesse campo me inquieta. Será que o destino influencia diretamente a vida política de um país, de um estado ou de um município? E seus personagens centrais como são escolhidos? Ou será que no mundo complexo da política, pois inclui um sistema, opções ideológicas e os meios para se conseguir avançar ou retroceder, são tocados pelo acaso? A resistência através da organização popular é uma certeza para quem quer mudar o destino político de um país, de um estado ou de um município, mesmo que só seja infinito enquanto dure, mas por certo ficará.

A única certeza que tenho é a de que a escolha de uma causa para se lutar, daquela que faça valer nossa própria vida e que acaba virando o que rege a nossa militância política, essa não tem nada de acaso, pois vem da certeza. Quando a causa é escolhida por pura convicção política-ideológica, se torna real e ficará para sempre.

Ah Clarice Lispector, como me identifico com suas inquietudes...  Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

No mais, cada vez que o trem da história faz uma curva e eu me desequilibro, sinto no momento seguinte que a vida está me testando para saber qual é o meu limite. Aí olho para trás e vejo o quanto plantei e mesmo que tenha deixado de regar algumas plantas, em alguns momentos por pura estupidez, sei que o tempo como senhor da razão vai me proporcionar uma ótima colheita.

Que venha o amanhã, o depois do amanhã e principalmente o futuro onde depositarei minha história.
Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Você já se procurou nas veredas da vida?

Escrevo esse post como uma espécie de acerto de contas comigo mesmo, porém sempre procurando dialogar com o futuro, a partir de fragmentos dos últimos tempos. O que continua sendo belo é o ato de viver.

A introspecção leva às reflexões. Tira-nos da certeza de que o mundo gira apenas em torno de nossas cabeças, a partir das nossas emoções e isso nos faz rever conceitos, buscar pontos de equilíbrio, juntar pedaços do que passou e nos direciona ao centro de nossos universos, em busca das nossas essências que às vezes parecem perdidas. Espelho, espelho meu, quem de fato sou eu?

Você já se perguntou quem de fato você é? Já se encontrou de forma deslocada de seu eixo natural? Que vereda seguiu? Encontrou-se rapidamente? Que contribuição lhe trouxe o amor, ou foi tudo ilusão? Perdoou e obteve o perdão? São perguntas e respostas que interessam a milhares de pessoas, que em muitos casos, nunca pararam para pensar.

Nem de longe me atreverei a responder perguntas tão intrigantes e embaraçosas, até porque a vida nos coloca em cada encruzilhada... O objetivo deste post é apenas e tão somente parolar sobre os desencontros da vida.

Sinto-me incompleto para analisar as reações humanas, até porque humano que sou vivo também tendo reações, às vezes nada confortáveis, para quem convive comigo. Coisas de um ser imperfeito que vive a se buscar, que como forma de compensação recorre à leitura em busca de novos conhecimentos e novos conteúdos que ampliem o poder de reflexão frente ao que escreve para o blog. Que bom ter esse espaço para desabafar...

Em termos gerais, como fazer uma análise criteriosa da sociedade atual e dos problemas nela contidos, se vivemos um dos piores momentos que a sociedade brasileira já viveu? De um lado uma nação individualista odiosa e surreal pulando atrás de um pato gigante, comandada por agentes do mal e de outra uma massa despolitizada, alienada, carente e com grande parte dela de volta à miséria. No meio dessa situação um grupo de sonhadores e sonhadoras, militantes das causas socialistas e humanistas, tentando salvar parte do mundo contaminado pelo ódio, friezas emocionais e cálculos financeiros, sob a demanda dos profissionais da politica. O desafio é saber o que somos e o que queremos ser...

O que dizer então de uma casta de intelectuais, seja de direita ou de esquerda, que vive em outro planeta? Fala uma linguagem que só eles entendem. Não entendem de povo.

Para fugir dessa apatia, sinto vontade de misturar poesia com cachaça, como diz a música de Vinicius de Moraes “Cotidiano nº 2”, mas no meu caso não discuto futebol, ainda mais se for da seleção. Basta que eu me lembre daquele monte de patos e patas de verde-amarelo pulando pedindo fora Dilma, que não sinto vontade nem de ver.

Assim sendo, só me resta voltar à discussão do mundo da boa política, que está em baixa é certo, num país dominado pela politicalha, mas a luta para que essa boa política não morra continua firme com a militância que segue em frente a lutar por um mundo melhor onde caiba todos e todas. Essa galera pode até sofrer de crises de valores, mas jamais de princípios.

São nesses momentos que recorro à Neruda, Fernando Pessoa, Drummond, Clarisse Lispector, Paulo Freire e tantos outros e outras. Suas leituras abrandam as dores da alma e nos alimenta com energia para o futuro.

Agora, para abrandar de vez os efeitos das tempestades e aprender com elas, vou mesmo é buscar meu violão que está na casa de um grande amigo e simplesmente tocar nas noites mal dormidas. A música é companheira da alma. Aí sim vou cantarolar o que me der prazer ou ainda que me faça esquecer os desencontros e as reviravoltas que a vida dá. Também quem manda ser pura emoção? É preciso aprender com pessoas que são pura razão a maior parte do tempo. Essas com certeza sofrem e sofrerão muito menos.

Buscando afirmação ao que escrevo, parto do princípio de que ninguém é, está ou estará totalmente seguro de forma definitiva de qualquer decisão tomada ou qualquer situação que seja, principalmente àquelas voltadas às questões emocionais. Ou ainda questiono quem acha que está e estará sempre à frente das situações. O que hoje é por reação, poderá ser amanhã por ação, devido aos revezes da vida. Caso tudo isso ocorra porque queremos ser o agora, com base no ontem, mas não nos esqueçamos do amanhã. Sempre haverá o dia seguinte, a noite seguinte e com eles virão as dúvidas insanas...

Devemos sempre lembrar que a terra gira, os astros caminham pelo universo e ninguém é o que foi ontem. Bom mesmo é estarmos preparados e preparadas para as travessias da vida, no sentido de refazer caminhos se necessário for, com o intuito do se encontrar e ser feliz. Mais vale um arrependimento consciente do estrago feito, do que uma certeza incômoda que seguirá conosco pelo resto da vida. Dúvidas do porque se permitir e mais dúvidas ainda do porque não se permitir...

Clarice Lispector por Clarice Lispector, certa vez escreveu: Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não ser...Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor a conhece e a subjetiva...Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo”!!!

Fecho essa conversa declarando ter coragem suficiente de mudar quantas vezes for necessário, de criar novos valores e principalmente de pedir desculpas, tantas vezes forem necessárias para quem eu estiver incomodando ou fazendo sofrer. Tudo isso no sentido de ser mais autêntico comigo mesmo, mais amoroso com quem amo e mais verdadeiro quanto à minha essência. Refaço-me a cada momento que aceito o que fizer bem ao meu coração.

Olá futuro, estou de olho em você! 


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social

terça-feira, 8 de maio de 2018

A paixão é um refúgio de quem ainda acredita no amor?

A introspecção nos leva a fazer uma viagem do ontem rumo ao futuro. Particularmente não gosto de dias nublados. Sinto-me desconfortável. Devo ser porque sou filho do sol e tento aproveitar toda sua energia a cada segundo.

A sociedade brasileira está em crise. Uma alta dose de tristeza paira no ar, composta por várias atribulações: O país em golpe, Lula preso, a politica sendo transformada em negócios eleitorais pelos profissionais da política, a violência generalizada, mulheres perdendo a vida por um machismo histórico, desencontros amorosos e principalmente falta de perspectiva para o futuro, que entre tantos outros problemas, leva muita gente ou a emoções frequentes e às vezes descontroladas, ou a agirem de forma fria e calculista frente às questões pessoais, principalmente emocionais e com os males da sociedade.

Após ouvir alguns desabafos sobre problemas existenciais e paixões mal resolvidas, resolvi escrever sobre o complexo tema da paixão. Esse estranho sentimento que deixa muita gente numa situação desconfortável. Como explicar que numa paixão tudo nela parece ser intenso, mas em geral é de curta duração, como fogo de palha?

Li certa vez uma lenda sobre um Velho Duende e uma Linda Flor, que retratava um caso mal resolvido de seus personagens. O enredo chegava a ser poético, misturava alegria com tristeza, desafios de vencer a distância entre o jardim e a floresta e, sobretudo mostrava em detalhes, os ingredientes de uma paixão.

Viveram intensamente por muitas luas, trocaram juras secretas e de uma hora para outra tudo que era sol virou uma tremenda tempestade. Linda Flor resolve por um fim aos encontros, deixando o Velho Duende sem nada entender. A história termina com ele deixando um recado para ela numa pedra e depois seguindo floresta a fora e ela voltando ao seu jardim e o proibindo de qualquer contato. Uma leitura dos tempos de teatro, que ficou na memória.

Nos cursos de formação política abordo sempre o tema da paixão, ao me referir que uma eleição normalmente é decidida pela emoção e não pela razão. É o coração quem comanda e não a cabeça os resultados eleitorais. As pessoas se apaixonam pelo personagem principal fazendo com que desapareça qualquer racionalidade no processo eleitoral.

Fui à busca de um conceito sobre paixão. Segundo o site significados, paixão é um sentimento humano intenso e profundo, marcado pelo grande interesse e atração da pessoa apaixonada por algo ou por alguém. Exatamente como me descreveram. Normalmente a paixão só envolve vigorosamente uma das partes. A outra apenas transita junto, sem maior envolvimento.

Ainda segundo a definição do site, a paixão é capaz de alterar aspectos do comportamento e pensamento da pessoa, que passa a demonstrar um excesso de admiração por aquilo que lhe causa paixão. A impulsividade, o desespero e a inquietação são outras características que costumam estar associadas ao sentimento de paixão. Algo desesperador para a pessoa possuída pela paixão e indiferente para a outra parte.

A maioria das paixões  termina sempre da mesma forma. Um lado querendo continuar com o romance e o outro simplesmente acaba com a graça, sendo que em tese, tudo começara com o envolvimento de ambas as partes. Paixão para muita gente é um poço sem fundo ou um caminho sem volta.

O psicólogo e neuropsicólogo Fábio Roesler, diz que há sim uma grande diferença entre paixão e amor: "O amor, normalmente, está relacionado a um sentimento bonito, estável e sereno, mais controlável e menos temido, enquanto a paixão nos invade e domina nossos pensamentos. É tida como arrebatadora, turbulenta e, muitas vezes, sofrida", explica.

Segundo Roesler, a principal característica das pessoas apaixonadas é que elas passam a enxergar no outro aquilo que desejariam que ele fosse, e não o que ele realmente é. "O parceiro é idealizado e transformado em um personagem", afirma o especialista. Ele diz ainda que apesar de algumas pesquisas apontarem que a paixão tem pouca duração (cerca de seis meses em média), não é possível determinar um tempo cronológico específico, já que cada história é individual e particular. Ou seja, cada caso é um caso.

Willian Shakespeare dizia que Ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa”. Dizia ainda que a paixão cega: “Oh, paixão, que fazes com meus olhos que não enxergam o que veem”?

Na música Quando a Gente Ama, dos compositores Marcelo Barbosa, Bozo Barretti, eles afirmam que a paixão é algo inexplicável: Quem vai dizer ao coração que a paixão não é loucura, mesmo que pareça insano acreditar”...

Clarice Lispector afirmava ter medo da paixão: “E talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão”.

No meu entendimento a paixão deve ser vista primeiro com muita cautela, pelo sofrimento contido em várias situações, mas também com muita delicadeza, visto que em muitos casos acaba virando amor.

Problema mesmo é quando a paixão ou o amor vira saudade, como diz Chico Buarque: Oh, pedaço de mim. Oh, metade afastada de mim. Leva o teu olhar. Que a saudade é o pior tormento. É pior do que o esquecimento. É pior do que se entrevar”... Nesse caso só há uma solução. Quando ambos entenderem que o melhor caminho está em suas mãos.

Que todas as paixões mal resolvidas da humanidade encontrem um ponto de equilíbrio e virem amores eternos.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social

terça-feira, 1 de maio de 2018

Apenas uma reflexão para a vida e para quem dela precisa


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Quem sois vós? Quem sou eu? O que buscas? Onde achar? Que caminho seguir? Quem estará conosco? Estará sol ou chuva? Será dia ou noite?

Sinto-me viajando no carrossel da vida, sentido um vento suave provocado pela velocidade do tempo. Busco abrigo para me amparar da chuva, mas ao mesmo tempo sinto vontade de me molhar. Na chuva parto para o campo, apenas pelo gosto de sentir no rosto as gotas geladas vindas do alto. 

Não me sinto feliz, nem tão triste o suficiente para não dar valor ao ato de viver. Entendo que para uns e outras o carrossel pode significar uma turbulência na vida e para outros e outras representa a vida em movimento, composta por altos e baixos. O importante é entender que nem mesmo o carrossel será o mesmo após cada volta que dá.  

Saio da chuva e volto ao carrossel e tento decifrar o que é possível ser feito no curto espaço de tempo em cada volta que a vida dá. Lembro-me que quando a chuva passar vem à hora do plantio e de torcer novamente por nova chuva para que a colheita seja próspera. Ao descer pela segunda vez, vou caminhando introspectivo e apenas canto uma canção para o tempo passar.

Penso que bom mesmo é ser criança, pois se chora sem motivo real e se ri de tudo que se passa à frente, apenas pelo prazer de ser feliz. Ser adulto às vezes é muito chato e que vontade que dá de voltarmos a ser crianças novamente. Como isso é impossível só nos resta caminhar em direção ao futuro, onde encontraremos com o resultado de nossas crenças.

Quando um dia tudo isso virar saudade, há quem diga que por aqui passou um fogo chamado paixão que contaminou todos aqueles e aquelas que não têm medo de ser feliz. O bom é saber que enquanto há vida podemos moldar o barro e consertar cada imperfeição que o ato de sermos seres incompletos vem a provocar.

Que a vida me conceda a oportunidade de refazer cada momento. De rever conceitos se necessário for e de fazer com que o predicado não negue o sujeito que sou e tampouco me anule do ato de viver. O importante é sentir que sempre se faz necessário aprender, crescer e mudar.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública Social

terça-feira, 27 de março de 2018

As inquietudes da ausência que invadem a nossa essência

A partir do entendimento do momento atual, dá para viver sem inquietar-se? 

Inquieto-me pela destruição das conquistas de mais de cem anos de lutas, mas muito mais por ocasião da ausência de questionamentos organizados por parte da maioria da população brasileira que perdeu praticamente tudo. Isso provoca entre outras situações, uma invasão na essência humana para quem veio ao mundo a trabalho e continua lutando por uma causa humanista e de igualdade.

Parto da avaliação da existência de uma séria crise de identidade na sociedade brasileira, advinda de vários fatores e de diversas matrizes, principalmente ideológicas e isso faz com que em muitas situações, inúmeras pessoas mais pareçam transeuntes de uma terra de ninguém do que habitantes de um planeta que se propõe a viver em harmonia. Além disso, uma grande parte da população não possui um projeto de vida. Apenas vive. Isso faz com que o caos mostre sua verdadeira face e avance sobre os sonhos das pessoas.

Essas transformações a meu ver estão modificando profundamente o estado emocional de um contingente enorme da população, com prejuízos incalculáveis para o emocional e também para o mental, tornando as pessoas alvos fáceis do “sistema” e principalmente de seus agentes. Um dos eventos observados vem da ausência quase completa dessas pessoas do entendimento dos códigos do poder e isso provoca, entre outros fatores, o desinteresse completo da vida cotidiana, da política e dos políticos.

Grandes perguntas que nos vêm em mente: Esse desinteresse é consciente ou construído lentamente pelas forças dominantes? Para o “sistema”, esse processo de ausência de lutas concretas é uma coisa boa ou ruim? Como intervir? Podemos definir tudo isso como um processo de letargia?

Por definição, ausência pode ser entendida como ação de afastar-se de algo ou de alguém, mas também pode ser se ausentar de si. Andar de forma atabalhoada pelos corredores da vida, meio que sem rumo. Ou ainda a ausência provocada pelo desprezo humano que produz estragos emocionais nas pessoas acometidas, muitas vezes irreversíveis. É preciso amar a vida para poder amar a causa.

Por ser um tema tão complexo, esse post não tem a pretensão de se enveredar pela área da saúde e tampouco psicológica para explicar sobre as diversas formas de ausência, mas buscar entendimentos que nos ajude a entender essa paralisia geral que acomete grande parte da população brasileira.

Um dos caminhos possíveis dessa letargia pode vir da ausência de emoções e indiferença a tudo, que é uma patologia, que consiste em regras gerais, num desinteresse total de tudo e de todos. Nesse caso não há emoções em jogo ou em disputa. Pode ser causada, por exemplo, pela falta de qualidade das relações interpessoais e de sonhos desfeitos, gerando o que a medicina chama de Transtornos de Humor.

Porém, será que isso é suficiente para entendermos essa crise de ausência nas ruas? Como explicar então se as ruas enchem quando a Globo chama a população para pular diante de um pato, escondendo as verdadeiras razões dos problemas do país?

Vamos por outro caminho. E se tiver ocorrendo um controle e manipulação das massas, numa ação ordenada por quem provocou essa enorme crise e por seus aliados? Vejam o que diz Noam Chomsky:

“Um estado totalitário não se importa com o que as pessoas pensam desde que o governo possa controlá-la pela força usando cassetetes. Mas num estado democrático, quando você não pode controlar as pessoas pela força, você tem que controlar o que as pessoas pensam e a maneira típica de fazer isso é através da propaganda (fabricação de consentimento, criação de ilusões necessárias), marginalizando o público em geral ou reduzindo-a a alguma forma de apatia”.

Inspirado nas ideias de Chomsky, o francês Sylvain Timsit elaborou a Lista das 10 estratégias mais comuns de manipulação em massa através dos meios de comunicação de massa:

1. Estratégia da Distração: Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real.

2. Criar problemas e depois oferecer soluções: Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.

3. Estratégia da Gradação ou da Gradualidade: Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. 

4. Estratégia do Diferimento: Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

5. Tratar o público como se fosse criança: A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantismuitas vezes próximos à debilidade.

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão: Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade: Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade: Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto. Introduzir a ideia de que quem argumenta demais e pensa demais é chato e mal humorado, que lhe falta humor de sorrir das mazelas da vida. 

9. Fortalecer a culpa: Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraçapor causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Aqui a meritocracia se encaixa como uma luva.

10. Conhecer melhor os indivíduos do que eles mesmos se conhecem: O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que dos indivíduos sobre si mesmos.

Minhas inquietações se tornam mais aguçadas quando me convenço que o golpe em curso no Brasil nada tema ver com Temer ou com a politicalha do momento e sim o Consenso de Washington estruturado em 1989, assim como também me inquieto quando me convenço que a ausência do povo das ruas no combate à destruição de suas conquistas se dá por um processo de manipulação e alienação promovido pelos agentes do “sistema”.

Para combater esse estado de abandono e desagregação popular, só uma grande dose de formação política cidadã, que seja capaz de intervir e motivar outras pessoas. Algo que as conquistem pelo conhecimento, ajudando-as a entenderem o “sistema” e a se defenderem da opressão presente na atualidade em cada esquina, assim como tomarem tento e lutarem pelos seus direitos.

Finalizo essa conversa com duas frases de Maquiavel: “Um povo corrompido que atinge a liberdade tem maior dificuldade em mantê-la”. “Para bem conhecer o caráter do povo é preciso ser príncipe e para bem conhecer o do príncipe é preciso pertencer ao povo”.

Vídeo - As dez estratégias de manipulação das massas de Noan Chonsky
https://www.youtube.com/watch?v=xBVUBJXWXWY  

Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social

terça-feira, 6 de março de 2018

Esperança - Esperar ou Esperançar?

Mais uma vez enveredo na escrita para falar de esperança. Um termo saliente, que caminha com os humanos, ora como a energia da certeza e ora como um pretexto para a espera.

Esperancei no texto “Um brinde a esperança”, buscando suas melhores afirmações e desta vez busco contextualizar se o ato de esperançar vem como a esperança da crença ou como a espera da incerteza. Duas linhas tênues, quase imperceptíveis da esperança que nascem juntas, porém com conotações completamente diferentes em termos de comportamento humano. Quem esperança persevera e quem espera aposta no acaso.
O filósofo Mário Sergio Cortella dialoga com essa dualidade ao afirmar que uma coisa é ter esperança do verbo esperar e a outra, bem diferente, é ter esperança do verbo esperançar, pois esperança do verbo esperar é apenas espera e esperança do verbo esperançar é juntar fé com determinação, vencer obstáculos e a ação de caminhar rumo ao que se almeja para o amanhã.
Esperança por definição é almejar, sonhar, buscar, agir e assim esperança busca contorno para se tornar o contrário de espera, pois enquanto esperança do verbo esperançar é vida em movimento, esperança do verbo esperar é passividade. Enquanto esperança é ação, espera é solidão.
Tu já pensaste nisso? Já parasse para pensar se tua esperança não é daquelas que só espera o que almejas, mas nada fazes para que aconteça?
Se fôssemos analisar do ponto de vista de uma causa, esperança do verbo esperançar poderia ser uma caminhada junto com a missão, monitorando os contratempos e ao mesmo tempo se deleitando com os resultados positivos. Enquanto isso esperança do verbo esperar, provavelmente faria com que o tempo fosse senhor da razão e os obstáculos justificassem a falta de conquistas.
Ao navegar pelo Rio Tapajós a caminho de Itaituba no Pará e de volta à Santarém, observando a paisagem, onde parte dela se encontra destruída pela ganância humana, tive a oportunidade de refletir sobre missão e causa e cheguei à conclusão que assim como a esperança é confundida com espera, a missão é confundida com a desobrigação de viver, como se nascêssemos para o nada ou ainda sem nenhuma razão que pudesse dar sentido à causa.
Ás vezes nos distraímos com a vida e esquecemos de dar consistência a tudo que produzimos, ou ainda nos esquecemos de dar importância a nós mesmos e com isso passamos a esperar que as coisas aconteçam, ao invés de agirmos para que ocorram. Isso além de ser um vício cultural, para quem luta por uma causa acaba também se tornando um desvio político, pelo menos para quem se propõe a lutar uma por uma nova sociedade e não se prepara para isso.
Porém, do ponto de vista da nossa existência o que é mesmo a esperança? Será que sabemos esperançar? Será que as nossas crenças são maiores que as nossas desilusões? Onde buscamos entendimento que corrijam nossos comportamentos de descrença por falta de confiança própria?
Esperança do verbo esperar é jogar com o futuro. É simplesmente se adaptar aos problemas da vida e porque não dizer fugir do problema central, que às vezes está a um palmo da nossa compreensão. Enquanto isso, esperança do verbo esperançar é vida que surge, caminhos que se abrem, veredas como alternativas para encurtar caminhos. Esperançar é antes de tudo crer na vida e na possibilidade de se refazer sempre.
Minha esperança vem da certeza da luta concreta aprendida à duras penas e busca consistência nas ruas junto com as pessoas mais necessitadas, irmanadas em busca dos sonhos perdidos. Vem dos sonhos de mudar a sociedade rumo a uma sociedade justa, fraterna e igual para todos e todas. Vem do sorriso aberto das pequenas conquistas e da esperança que o melhor ainda está por vir.
Tenho o sentimento que um menino ou uma menina provavelmente tem esperança de ser tudo na vida, o adulto tem esperança que a vida prospere e as pessoas idosas tem esperança que seus ensinamentos e experiências de vida sirvam de exemplo, pelo menos para os seus.
Esperança a meu ver nasce da decisão de querer mudar, da certeza que podemos ser o que quisermos ser, na medida em que vamos conquistando confiança e aprimorando a plenitude de nossa missão. Esperança é chama que se renova, antes que nossa disposição e crença cedam para a desilusão.
Espero esperança que possamos esperançar juntos, que dialoguemos com as diversas vozes que tenta nos desviar do caminho que traçamos juntos.
A esperança sozinha é como uma nuvem passageira. Junto com o otimismo e a disposição de lutar se transforma na energia necessária para a construção de um novo amanhã. É preciso agir com a esperança, antes que ela vire espera.
Finalizo buscando Fernando Pessoa que escreveu: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”.
Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social

domingo, 11 de fevereiro de 2018

E por falar em saudade...

Conta uma lenda que um menino perguntou a um sábio: o que é saudade? Ele sentou e olhando para o menino calmamente explicou: “Meu filho saudade é a expressão do nosso ser, que se materializa em nossa mente, em resposta ao que vivemos e gostaríamos de reviver”. Uma resposta de pura reflexão.

Hoje, me lembrando disso me atrevi a falar de saudade, considerada a sétima palavra mais difícil de traduzir. Um sentimento tão complexo, que pode ser ao mesmo tempo choros, risos, angústias, mas também possibilidades de caminhos refeitos. É certo que em alguns casos, a saudade devia ficar era quietinha lá no passado, como afirma Mário Quintana: “O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente...”, como quem diz: fica aí onde está e não amola!

Quem não tem uma saudade guardada levante à mão? Quem não tem uma saudade que mereça ser lembrada? Que saudade nos leva ao riso e ao choro?

Enfim, infinitas possibilidades e formas de expressar a saudade. Saudade do que houve e saudade incômoda do porque que não houve...

Vou procurar nesse post falar de saudade como nostalgia e não como melancolia, aproveitando o pensamento de Heitor Cony, que afirmava: “Nostalgia é saudade do que vivi e melancolia é saudade do que não vivi”.

Bob Marley disse certa vez que saudade é um sentimento que quando não cabe no coração escorre pelos olhos. No meu entendimento os olhos expressam o que o coração transborda. Os mesmo olhos que reagem com lágrimas a uma lembrança triste pela perda, podem brilhar quando a mente leva a uma saudade prazerosa. Uma dualidade que vai moldando nossa parte emocional, que vai enfrentando o debate entre a razão e a emoção.

Diria até que saudade é como erva daninha, que quando se da conta vai se alastrando pelo jardim afora. Para isso temos que nos precaver de forma permanente para que a saudade não nos faça apenas presos ao passado e esqueçamos que a vida tem que ser vivida a partir do presente, mas com foco no futuro. Ou seja, aproveitar o passado, viver o presente e focar no futuro.

Nas viagens de nossas inquietações, Drummont alertava para a saudade inexistente, aquela que nunca ocorreu na prática, pelo menos na dimensão do que se imaginava. Dizia ele: “Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante”. Algo que deve ser mais inquietante ainda. Fernando Pessoa também fez referência à mesma coisa: “Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram”. É como se fosse uma espécie de fantasia, que ora gera um vazio e ora angustia. Nem quero pensar!

Do ponto de vista da nossa existência saudade vem para preencher um vazio, para nos lembrar de que um ciclo foi interrompido, que algo que era bom poderá não mais acontecer. O poeta Peninha dizia que saudade é melhor do que caminhar vazio, como se para ele a saudade, mesmo incômoda, fosse uma espécie de alimento que acaba preenchendo o vazio das nossas imaginações.

Já que a coisa parece inevitável, porque não leva-la às escolas como parte integrante de historia, pois saudade é vida que se viveu. É sentimento acumulado, mas, sobretudo é parte fundamental da história de cada ser humano. Uma possibilidade de trabalhar com as crianças reforçando seus valores humanísticos e de convivência que serão lembrados no futuro e também trabalhar com elas como lidar com a saudade de suas perdas.

Tenho gostosas lembranças da minha infância num sítio em Belo Jardim, Pernambuco: os banhos de rio que nem ele existe mais, dos momentos de sol e chuva, uma mistura perfeita que exalava o cheiro da terra molhada e após a chuva a relva que nascia preguiçosa nos roçados e se deparava com centenas de passarinhos a se deliciar e do carrossel no distrito de Serra do Vento. Nem imaginava que o carrossel seria uma figura fundamental na minha vida profissional, após a conversa com Paulo Freire em 1989. Era bom e eu nem sabia.

Clarice Lispector falando de si nos alerta para algo importante, o cuidado para que não nos percamos de nós mesmos e isso vir a provocar uma saudade do que éramos e de quem poderíamos ter sido, ou ainda um medo do que poderemos ser. Disse ela: “Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde estou eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma”.

Seja como for, saudade é, foi e será uma parte fundamental das nossas vidas e existe para nos lembrar que estivemos e estamos com o coração batendo provando que viver vale a pena e prontos ou não para vivermos outros momentos que nos gerem muitas saudades futuras. Saudade é antes de tudo um hiato entre o que foi e o que é na atualidade.

Como bem disso Vinicius de Morais: “Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...”

Eu por exemplo nesse momento, estou com saudade de um doce de leite de cabra que a minha vó Isabel fazia em seu fogão de lenha, sempre para agradar os netos e vinha na rede me chamar para que eu pudesse comer ainda quente. Como foi tão bom vó!

Antonio Lopes Cordeiro
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social
tonicordeiro1608@gmail.com


domingo, 4 de fevereiro de 2018

O Brasil da minha Avó Mariana

Desde criança sempre gostei muito de ouvir as histórias vivenciadas por minha avó materna que se chama Mariana, relatos de uma vida Severina, causos de uma mulher nordestina que nasceu num Agreste pernambucano pouco convidativo nos idos de Março de 1932. A história de vida da minha avó se confunde com a história de milhares de nordestinas, brasileiras e pernambucanas que trazem consigo resquícios de uma sociedade colonial firmada no machismo, alienação e fanatismo religioso regado à miséria. Em uma noite com o celular nas mãos resolvi gravar suas palavras, o diálogo era sobre fome, miséria e a desgraça dos anos de sua juventude. Como historiadora que sou não deixei de inserir sua fala num contexto histórico familiar aos meus ouvidos e as páginas dos diversos ensaios que nos contaram a tragédia da fome.
            A seguir um relato não de quem ouviu falar, mas de quem vivenciou, de quem chegou a tocar naquele cenário de Vidas Secas, assim com seu jeito simples e sem preocupações ortográficas me relatou minha avó Mariana:
...Era tudo um jiral de varas. Um catatal de vara com uma esteira velha. Era minha “fia”. Era a riqueza, era essa. Mas pronto! Ah minha “fia” eu nasci e me crie foi vendo gente passar necessidade. Roubar mandioca, pelos rosados. Era o povo roubando mandioca pra fazer “bejú”. Aproveitavam que os donos não “tavam” no roçado. Arrancar mandioca.
-Mas foram no meu roçado e arrancaram não sei quantos pés de mandioca.
            Tudo pra fazer “bejú” pra alimentar os “fios”. Tá pensando que era brincadeira era? Hum. Esse povo novo não sabe disso não. Pensa que nunca houve isso não. Mas houve muito viu! O que passou no mundo da “cambada véia”, só quem sabe quem for antigo.
            O povo “ia” pro Juazeiro de pé. Pedir coisa ao meu Padre Cícero. E quando chegava lá, pedia coisa pra ele. Ele dava alguma coisa que ele tinha que tinha poder.
Mas era tanta da coisa que você não sabe de nada não. Chegava numa casa. Aquele horror de gente. Escondidos por que era tudo rasgado, “entangado”. Era fogo. Hum.
Meu pai era uma pessoa... Que meu pai ajudou muito. Ele ajudou muito o povo. Quando ele sabia que tinha uma pessoa passando mal. Ele mandava ir ver coisa lá. Ele tinha feijão de “fole”. Roça pra fazer farinha à vontade. A pessoa ia pro roçado de mandioca assim. Quando dá fé chegava quatro, cinco pedindo umas mandioquinhas pra aprontar pra “relar” fazer “bejú”. Hum. Você não sabe de nada não, mas eu, eu sei. Eu vi coisa quando era criança.
Água? Era uma seca! Tinha ano que era seco. Pra ver uma gota naquele “vinquivinco”, um pote d’água. Na cabeça. Meu pai como tinha “animá” levava numa âncora. Ele tinhas umas âncoras de carregar água. E quem não tinha era na cabeça. Saiam de madrugada aquele rebanho pra ir ver água no Retiro. “Muié” e homem. Tudo. Com os potes na cabeça. E era longe vissi! Mais de légua.
            A volta era fogo.       Hoje todo mundo é rico. Graças a Jesus. Todo mundo é rico, tem ninguém mais pobre não, mas naquele tempo. Daquele povo antigo tem poucos.
            Chegava numa casa. Naquelas casas que tinha o que comer. Era que o povo dava uma coisinha de farinha. Outro um feijão. Por que tinha quem “trabaiava”, quem podia “trabaiava” pra ele, mas muitos não podiam por que iam morrer de fome. Trabalhar pra dá de comer a família.
Ah minha “fia”! A coisa era preta. Eu vi tanta crise na minha vida. Fazia dó.
            O relato acima descrito com riqueza de detalhe foi ao longo da história contado em diversas obras como, por exemplo, Josué de Castro em Geografia da Fome, na literatura por Graciliano Ramos em Vidas Secas, Os Sertões por Euclides da Cunha entre outras obras que se debruçaram sobre este tempo e esta temática, mas todos escritos sob a ótica analítica foram de suma importância para a posteridade, mas não há nada mais valioso que a memória das muitas Marianas, é pessoas que não leram que não ouviram falar, nem se quer sabem que a história de sua vida pertence a um contexto histórico, mas que seus olhos foram testemunhas e suas vidas vítimas de um descaso social materializado, que hoje temos conhecimento através das obras históricas e literárias.
            O Brasil da minha avó Mariana foi este Brasil por ela relatado, um Brasil desigual, cruel, que massacrou milhares de Marianas.
Cibele dos Santos Silva
Especialista em História-Belo Jardim-PE

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Por onde anda a identidade do povo brasileiro?

Às vezes por necessidade de trabalho e outras por pura preocupação, paro só para pensar em como traduzir o complexo momento que vivemos no país. Sinto na alma que por mais que sorrisos vastos inundem o espectro do nosso dia a dia, há sem dúvidas uma grande dose de tristeza perambulando no imaginário de milhares de pessoas. Algo que além da tristeza traz junto uma profunda crise de identidade. Algo tão profundo que o mais tolo dos tolos um dia acordará e quem sabe se dará conta de que nem mesmo chão tem mais.

Como explicar que de uma hora para outra todas as lutas dos últimos cem anos foram suprimidas e comprometidas e como resultado apenas uma passividade absurda? Cadê o respeito a quem deu a vida para que se tivesse liberdade e melhores condições para o povo trabalhador? Como levar ânimo para quem perdeu o rumo das coisas e que ontem mesmo cantava suas conquistas em versos, prosas e muito consumo?

Talvez a resposta de algumas dessas perguntas esteja na leitura precisa que a professora Marilena Chauí fazia sobre a conjuntura da época, ao se referir ao conjunto de trabalhadoras e trabalhadores. Enquanto se vendia a ilusão que o país tinha produzido uma nova classe média, ela afirmava que se tratava apenas de uma nova classe trabalhadora, que tinha conquistado o que nunca teve acesso, mas estava longe de se afirmar como pertencentes à classe média, a qual caracterizava como uma verdadeira aberração.

Diria que foi uma doce ilusão que caminhou lado a lado com o povo sofrido brasileiro por algum tempo e por falta de lastro, consciência crítica e política e a necessidade de sair do individual para o coletivo tudo veio abaixo. O golpe em curso foi algo permitido e premeditado. Um golpe de classe que segue rigorosamente a restauração das dez metas estabelecidas no Consenso de Washington.  Uma fatídica reunião ocorrida nos EUA em 1989, que tinha como pressuposto básico a implantação do neoliberalismo na América Latina e no Caribe. Um projeto de sucesso com FHC e interrompido pelos governos Lula e Dilma. Esse foi e é o verdadeiro enredo do momento que vivemos.

O resultado disso nos leva a impressão de estamos dentro de um filme de terror, vivendo cada cena apavorante. É como se um monstro desenvolvido em laboratório tivesse sido criado em casa como um bicho de estimação. Ele cresceu e engoliu seus criadores. O que o povo conquistou nos últimos cem anos, perdeu em várias canetadas e votos pagos com o dinheiro do povo.

Ao vasculharmos a história do Brasil, extremamente mal contada ao longo do tempo, percebemos que têm em seu DNA, invasão, golpes e escrachos políticos de toda ordem, mas também muita luta. Muita gente se organizou para lutar por direitos e mudanças na política nacional ao longo de sua historia.

Apesar disso, existem enormes contradições que transitam no tempo na política tupiniquim, onde os herdeiros da casa grande e seus representantes sempre esconderam que usaram e usam a boa fé do povo brasileiro para os enganarem e se manterem no poder, enquanto uma grande parte dos de baixo sempre consentiram em troca de algumas benesses. Uma contradição que manteve a democracia representativa atrelada aos interesses escusos nacionais e internacionais e que hoje se encontra praticamente falida.

Penso que o que sobrar desse golpe sairá muito mais fortalecido, tanto para a direita como para a esquerda. A direita que não tinha lastro agora tem e deem graças à mídia partidária e de classe que fez a cabeça de grande parte da população, além do que formaram alguns militantes, que é uma coisa nova no cenário político brasileiro. A dança dos verdes-amarelos consistiu num ponto de partida de pertencimento ideológico dessa linha de pensamento, que tem como grandes instrumentos o deus mercado, a meritocracia e o acúmulo de capital. A direita vive no Brasil sua lua de mel com o poder econômico.

Por outro lado, a esquerda brasileira tem a grande oportunidade de se reinventar, de criar a tão sonhada frente de esquerda, a partir de um projeto unificado de sociedade, organizar a sociedade na luta de seus direitos, além de retomar antigas bandeiras históricas perdidas no individualismo de cada segmento e de cada linha de pensamento.

Para hoje no processo de enfrentamento, a grande tarefa será a organização nacional de comitês de resistência suprapartidários, ou ainda de Conselhos Populares, com base na capacitação, principalmente para que se possibilite o nascimento de novas lideranças, que é a grande escassez do momento.

Conquistas se fazem conquistando. Lutas concretas necessitam de exercício diário e contínuo e projeto de vida necessita de sonhos que o alimente.

Cada vez que o trem da história faz uma curva caem por terra centenas de falsos líderes e dão espaço para que, da base da sociedade, sujam novos atores que lutam por uma causa.
Ter uma causa é antes de tudo se comprometer com milhares de pessoas que perderam suas identidades, resgatando seus sonhos perdidos e alimentando o direito de participação como grande instrumento de vida.

Que consigamos embarcar no trem da história e fazermos a travessia rumo a uma sociedade justa, livre e igual para todos e todas.
Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Estatístico e Pesquisador em Gestão Pública e Social
tonicordeiro1608@gmail.com