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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Audio Book "A Arte da Guerra" em homenagem a um padre peregrino

Postado por: minorujr

Após um domingo especial, onde comemoramos os 25 anos de sacerdócio do Padre Sergio Alvarez de Americana/SP, o único padre peregrino na nossa região, resolvi, em seu nome, brindar os leitores do blog com o áudio-book sobre a Arte da Guerra, algo tão novo que impressiona.

O Padre Sergio é uma figura humana extraordinária, que dedica sua vida ao combate a toda forma de injustiça e luta junto com as pessoas menos favorecidas por uma sociedade igual para todos. É um militante de uma causa, que não hesita denunciar quem quer que seja nem tampouco de elogiar quem de fato merece.

Punido pela igreja conservadora, segue feliz, sem uma igreja templo, mas ao lado do povo. Por incrível que possa parecer, até o momento não faltou celebração, principalmente da vida.

Boa leitura a todos.

Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas

sábado, 28 de setembro de 2013

A Gestão Pública vista como um campo tecnopolítico e a máquina pública como um campo profissional


Figura: www.fcap.adm.br

Qual a dimensão de um governo? Que tipo de governo está na cabeça dos gestores? É possível trabalhar como profissional mesmo num campo político?

Há pouco mais de dez anos, ninguém podia imaginar que o país passasse por tamanha transformação. Primeiro pelo fato do Brasil, até aquele momento estar refém do FMI, Clube de Paris e principalmente dos Estados Unidos, onde qualquer mudança na economia ou mesmo na política salarial tinha que ter o aval de seus credores e muitas vezes recuar da proposta em nome da governabilidade. Um verdadeiro vexame governamental, sem contar nas heranças malditas das ditaduras, onde muita gente morreu em nome da liberdade.

Em segundo, quem podia imaginar que um operário fosse eleito duas vezes, elegesse a primeira mulher na história como sua sucessora e ambos criassem Políticas Públicas capazes de gerar uma grande revolução silenciosa: política, econômica e social. Não é atoa que uma Rádio como a CBN, que considero uma peça chave da Teoria da Conspiração, dedicou os dez últimos anos de suas programações, na tentativa de desconstruir todas as políticas federais, a tal modo que quando ouço algo que consideram uma boa política federal, fico pensando onde foi que o governo errou.

A dimensão de um governo tem que ser proporcional à necessidade da população, tem que ser construída nas ruas e não em gabinetes, porém isso só é possível se o grupo que governa for de fato representante da população e em especial da população menos favorecida. Não tem segredo. Cada governo representa um segmento da sociedade e fundamentada nos interesses de quem economicamente financiou a campanha eleitoral. Quanto mais dinheiro para as campanhas, mais comprometidos os governos ficarão com seus credores. O pensamento politico da gestão tem que ser advindo da interação com a sociedade.

Como afirma Yehezkel Dror: “O pensamento político deve lidar com opções estratégicas voltadas a ter impacto significativo no futuro, às vezes estabelecendo e alterando trajetórias de longo prazo”.

Governar é uma ação política e não meramente administrativa, assim sendo, o resultado de um governo não pode ser avaliado apenas pela quantidade de obras executadas e sim por quanto avançou em termos de soluções para a população e é nesse momento que sabemos a quem esse governo serve. Não se governa olhando apenas para o presente e tampouco da mesma forma para o futuro, se governa ouvindo a população e junto com ela preparando as ações futuras. Uma junção de representatividade com participação, ou ainda de representantes eleitos nos fóruns participativos. É com essa concepção que se pode enxergar e avaliar se um governo é conservador ou progressista.

Outra afirmação que faço é que num país capitalista e voltado ao mercado, o Estado tem que ser forte e junto a isso, se faz necessário à criação de instrumentos participativos que interaja com a população e construa Politicas Públicas a partir de seus referenciais. É dever do Estado suprir as necessidades da população carente e criar condições dessa população voltar novamente a ser incluída no seio da sociedade, lhe garantido o direito de cidadania.

Assim, não é somente um governo criar, por exemplo, coordenadorias da mulher, da juventude ou da igualdade racial e de outros setores, quando criam, mas se responsabilizar para que cada setor criado trabalhe a partir da interação  integração com o setor específico e com os demais setores de governo, pois não existe nenhuma Política Pública que seja independente, necessitando assim uma ampla integração de governo. Outra questão importante é saber se os gestores nomeados envolvidos têm a ver com os instrumentos criados, tenham entendimento da necessidade de envolvimento dos atores e principalmente compromissos com o contexto de cada área governamental.

Outra questão relevante se refere a que tipo de capacitações e treinamentos está sendo oferecido, tanto para os gestores, para os funcionários públicos de carreira e também para a população. Podemos aqui fazer uma breve referência a pelo menos três tipos de focos distintos:

1) Para os gestores e técnicos, se torna fundamental uma capacitação tecnopolítica, motivadora e que facilite a compreensão quanto aos compromissos assumidos técnicos e políticos pelo governo, fundamentado principalmente no Plano de Governo e de suas atualizações nos fóruns participativos realizados;

2) Para os servidores de carreira, uma formação técnica continuada, no sentido de passar a visão que a máquina pública pode ser transformada num campo profissional, com perspectivas claras a partir da construção de um plano de carreira participativo e o envolvimento dos servidores, quanto aos seus compromissos perante à população; 

3) Para a população, uma capacitação técnica voltada à preparação de novas lideranças, que ocupem os cargos nos instrumentos existentes e a serem criados, com a visão de representantes de fato da população e não de oportunistas que apenas ocupam as funções em benefício próprio. Além disso, ampliar a oferta de cursos técnicos, no sentido de melhorar a qualidade técnica da mão de obra, ampliando assim para novas possibilidades.

Governar sob o ponto de vista político de mudança da sociedade e de melhoria na qualidade dos serviços oferecidos, vai muito além de um gerenciamento de governo como se fosse uma empresa, que é compreensão dos gestores ligados aos partidos de direita com uma visão neoliberal, na verdade se constitui na prática de um exercício de mudanças contínuas e de reeducação, tanto interno como externo.

Como afirma Zenaide Sachet: “A constatação mais triste é que muitos dos nossos governantes assumem os espaços de governo sem ter consciência de que o processo de condução é muito distinto de um processo de gerência rotineira e que a rotina é apenas parte do sistema de gestão. Parte bastante pequena, já que, dos problemas que um dirigente enfrenta em um sistema de governo, apenas alguns poucos são bem-estruturados”.

Com essa visão, a criação e a implantação de uma Escola de Governo, tratada de forma séria, poderá contribuir e muito para a manutenção de um Programa de Capacitação Continuada, onde todos possam beber na fonte do conhecimento e esse conhecimento possa ser transformado no veículo necessário para as mudanças definitivas que a sociedade necessita.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Efeitos do Estado Neoliberal no Brasil

Imagem: democraciapolitica.blogspot.com


O governo neoliberal que é a política econômica que visa à redução das funções do Estado Nacional em prol das empresas privadas, começou de fato no Brasil com o governo de Fernando Collor de Melo (1990-1992). Com o impeachment de Collor, assumiu o governo o vice-presidente Itamar Franco (1992-1994) que efetivou algumas ações, tímidas, para reduzir o impacto do neoliberalismo no país.

Quem continuou a política neoliberal de Collor, foi Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que em 8 anos de mandato efetivou um desmonte do Estado brasileiro. Tal como, o eixo da política neoliberal pauta-se por privatizações e pelo não investimento nas áreas sociais e por um Estado Mínimo, foi dessa forma que Cardoso conduziu o seu governo.

Uma das características neoliberais do governo Cardoso foi a chamada reforma da previdência social, segundo o professor Otaviano Helene, ao analisar as mudanças na área da seguridade social afirmou que “as alterações propostas têm como objetivo satisfazer interesses econômicos, em vez de resolver os reais problemas do sistema previdenciário brasileiro”, ou seja, os aposentados estavam em segundo plano neste modelo previdenciário. 

Além de alterar a estrutura da previdência, o governo de Cardoso privatizou várias empresas, entre elas: a Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo, a educação superior, as Telecomunicações e a área de energia elétrica.  Naquele governo também ocorreu uma modificação do recrutamento de funcionários públicos, Cardoso, optou por terceirizar os serviços que eram de responsabilidade da União e pela redução de concursos públicos o que acabou sucateando a administração pública e comprometendo as funções do Estado.

No final do seu governo o país tinha uma dívida de 245 bilhões de dólares o que emperrou o avanço econômico do Brasil. Salienta-se que por falta de investimento na rede de energia, o país vivenciou vários períodos de apagões, ocasionando numerosos transtornos para os cidadãos brasileiros. Na área da educação não foi construída nenhuma universidade federal, optando-se pelo modelo de educação privada e assim excluindo milhões de pessoas ao acesso a uma educação de qualidade. Caro leitor, todas essas ações tinham como objetivo a redução do Estado brasileiro, isto é, ficaria a cargo do Estado apenas alguns setores, por exemplo, as Forças Armadas e as questões epidemiológicas. Fica evidente que o governo de Cardoso é o modelo mais próximo que temos de um governo neoliberal e que tal política não proporcionou o fim das desigualdades sociais e do desenvolvimento do país, pelo contrário, foi um retrocesso social e econômico.  

Israel Aparecido Gonçalves
Cientista político e professor universitário.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A busca da Igualdade Racial: uma luta permanente contra a exclusão política, econômica e social


Foto: quebala.blogspot.com

A questão racial no Brasil vem de um contexto histórico, dos tempos do Brasil colônia, que em grosso modo poderia ser traduzido como sendo o uso e dominação de homens e mulheres, trazidos à força de suas origens, formando senzalas para servir senhores e senhoras da Casa Grande e que a resistência significava tortura e morte.


Meu primeiro contato histórico-científico com esse apaixonante tema aconteceu em 1989, quando ganhei da minha companheira o Livro: “Retrato em Branco em Negro”, da antropóloga Lilia Schwarcz. Um livro que trazia a visão da imprensa paulista sobre a questão da escravidão, sobre os escravos e como foram abandonados pela sociedade, após a abolição da escravatura. Foi uma leitura impactante, pois defendia que na prática, a verdadeira escravidão ocorrera após a abolição.


Como militante político e coordenador na época de um projeto de mutirão habitacional, com pessoas vindas de várias partes do país, vivia na pele a discriminação e as portas fechadas para todas as nossas necessidades. O caminho mais natural foi à resistência, a indignação e a solidariedade a todas as lutas pela igualdade.


A identificação com a causa dos negros e negras no Brasil se deu automaticamente pela identidade da causa: a luta histórica, a resistência e a luta constante contra a toda forma de discriminação econômica, política e social.


Numa entrevista, Lilia faz uma revelação: “Aqui no Brasil, “ninguém é racista”, como determinou, em 1988, no centenário da Abolição, uma pesquisa cujos resultados eram sintomáticos: 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito. Mas, ao serem perguntados se conheciam pessoas e situações que revelavam a discriminação racial no país, 98% responderam com um sonoro “sim””.


No mundo católico, um fato ocorrido em 1981, idealizado por D. Helder Câmara, Bispo de Olinda e escrita por D. Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, por um lado escandalizava o universo conservador da igreja, mas opor outro enchia de orgulho todos os militantes da Teologia da Libertação. A Missa dos Quilombos, que era a continuidade da Missa da Terra Sem Males, sobre a exploração do índio, pedia perdão pela conivência e pela aceitação a todos às atrocidades cometidas contra os negros e negras. Milton Nascimento foi convidado a musicar a missa. D. Pedro escreveu sobre o evento:


Em nome de um deus supostamente branco e colonizador, que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vêm sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e à morte. No Brasil, na América, na África mãe, no Mundo. 


Deportados, como "peças", da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barata os canaviais e as minas e encheram as senzalas de indivíduos desaculturados, clandestinos, inviáveis. (Enchem ainda de sub-gente -para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos- as cozinhas, os cais, os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes). 


Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinaí Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, "em nome do Deus de todos os nomes", "que fez toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue".  Vindos "do fundo da terra", "da carne do açoite", "do exílio da vida", os Negros resolveram forçar "os novos Albores" e reconquistar Palmares e voltar a Aruanda. 

D. Helder Câmara invoca Mariama na Missa dos Quilombos em 1981
Postado por Daniel Tomazoni

A luta dos negros e negras, apesar de serem equivalentes a outras lutas contra a discriminação e a exclusão, por seu contexto histórico e sua origem, possui uma dimensão maior, sentida na pele, principalmente pelas mulheres negras, que são duplamente discriminadas.

Na véspera de iniciar um trabalho maior, no sentido de colocar na pauta nacional a questão da Igualdade Racial como texto e contexto na Gestão Pública, onde o Partido dos Trabalhadores governa, é vice ou faz parte da gestão, só tenho a agradecer pela grande oportunidade que a vida me deu e agradecer especialmente aos companheiros que identificaram no meu trabalho uma contribuição num assunto tão grandioso.

O importante é que possamos nesse novo trabalho, envolver pessoas na causa, incentivar a criação de Políticas Públicas inclusivas e participativas e essas cheguem possam chegar, com clareza, na fonte para quem de fato necessita.

Negritude não é cor é vida e alma. Negritude é invocar a igualdade, é resistência pela conquista de direitos e principalmente é grito de liberdade.



Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

domingo, 22 de setembro de 2013

Reviver a luta pelas Diretas Já para entender o momento político e a manutenção da liberdade

Comício das Diretas no Vale do Anhagabaú
Foto: www.a2fotografia.com.br 

As manifestações de junho passado, praticamente conduzidas pelo PIG - Partido da Imprensa Golpista, que tem dono, lado e que sonha em dar um golpe no modelo de governo que o Brasil tem  e por outro o medo de volta à ditadura ou a volta de seus representantes legais pela via do via eleitoral, pois ao expulsar os partidos políticos e as entidades representativas das manifestações, também esta se expulsando toda as lutas históricas do passado, por abertura, democracia e liberdade.

Como milhões de brasileiros, defendo uma Reforma Política ampla, geral e irrestrita, sou contra a toda forma de corrupção e luto pela moralização da política, porém como aprendi que não ter partidos e organizações de luta é a volta à ditadura, jamais estarei ao lado de quem quer dar um golpe na democracia.

Os três vídeos abaixo, primeiro representa a saudade em meus momentos inesquecíveis de militância presentes nos Comícios das Diretas da Praça da Sé e do Anhangabaú e também visa contribuir com a história, ao lembrar que toda liberdade que vivemos hoje, inclusive da imprensa golpista teve um preço: repressão, pessoas que doaram a própria vida e muita luta para que a sociedade pudesse se organizar em partidos, sindicatos, organizações e tantas outras formas.

Para os que odeiam a política só tem dois caminhos: continuarem sendo conduzidos pelos instrumentos da Imprensa Golpista ou entrar para dentro da política e darem a suas melhores contribuições.

 
A famosa reportagem sobre o Comício das Diretas
Luis Carlos Azenha

25 anos de Diretas Já
laricfraga

Direas Já - Fala Lula
Paulino Tarraf


"A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão."
Paulo Freire.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A magia de governar com o povo

Foto: www.hariovaldo.com.br

Ouvi recentemente de uma pessoa influente do meu partido, que já foi prefeito por dois mandatos, que a sua segunda eleição rumo à reeleição foi feita exclusivamente pela população, com baixíssimo custo. O resultado de seu trabalho no primeiro mandato, organizando os fóruns representativos, reorganizando os conselhos municipais e promovendo debate através do Orçamento Participativo, resultaram na apropriação de seu mandato pela população e essa lhe deu como presente o segundo mandato. Foi algo que soou como uma sinfonia, que jamais esperava naquele momento ouvir.

Por outro lado, ouvi não faz muito tempo de um prefeito de primeiro mandato, já inebriado pelo poder, que não queria muitos conselhos municipais organizados e nem deliberativos, pois travaria a máquina, assim como queria também poucas conferências municipais, porque o povo não estava preparado para uma gestão participativa. Por alguns instantes me perguntei o que estava fazendo ali para ouvir tamanha insensatez.

As situações descritas são tão antagônicas, que a vontade que me dá é colocar um em frente ao outro e torcer para que a magia da participação descrita pelo primeiro contaminasse o personagem do segundo caso.

Esses episódios, que marcam bem dois modelos de gestão, na verdade, em alguns casos, estão além de partidos, pois faz parte de uma questão cultural, ideologicamente moldada. Um que enxerga a população organizada como protagonista de seu futuro e outra que se molda ao sistema, realçando ainda mais o processo de exclusão.

Vários instrumentos de participação poderão ser criados, como: fóruns, seminários, conferências, conselhos, coordenarias, orçamento participativo e tantos outros. Porém, de nada vale um instrumento, mesmo que criado a partir de uma lei municipal, se o coração do gestor e as mentes centrais do governo, não pulsarem forte ao verem o povo reunido, nem se indignarem ao ver todos os dias: a miséria, a fome e a exclusão.

Para governar com o povo, é necessário ser povo, ter vindo das bases e ter passado por provações. É saber que cada momento como “senhor”, se não for compartilhado, o distancia cada vez mais da ideia de ser humano e o faz, nem que seja por segundos, num ser imortal. Como dizia Paulo Freire é preciso gostar de ser gente:

"Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele."

Para sentir essa magia é necessário um processo interior de transição, que ao mesmo tempo valorize a conquista da vitória, mas por outro lado leve ao entendimento que esse poder foi emprestado pelo povo. 

Valendo-me mais uma vez de Paulo Freire, ouso comparar o encontro da população organizada, em busca de seus ideais, a partir da abertura provocada por um gestor consciente, com o final de sua “Canção Obvia”, em busca da tão sonhada liberdade:

"Estarei preparando a tua chegada, como o jardineiro prepara o jardim para a rosa que se abrirá na primavera."

O Presidente Lula, sentiu essa magia. Não só governou com o povo, como também fez milhares de pessoas voltarem a sonhar.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Método Paulo Freire: 50 anos de uma educação libertadora


Postagem: TV Brasil

Postagem: Rallyson Lacet

No ano que completa 51 anos, o Método Paulo Freire, considerado revolucionário por educadores de várias partes do mundo e subversivo pelo detentores do golpe militar, que se apropriou do país, principalmente porque levava ao entendimento que os métodos tradicionais, além de não seduzirem a população analfabeta, principalmente a   adulta, não educavam sob o ponto de vista de uma educação libertadora, onde o conhecimento e a experiência de vida possibilitava um caminho para a sabedoria. Segundo ele, as cartilhas tradicionais apenas ensinava, mas não educava, com um grupo de professores sem perspectiva de vida e não educadores.

Para as pessoas mais vividas, quem não se lembra do Mobral, criado em 1967 pelos militares para fazer frente ao Método Paulo Freire. Um método arcaico, com professores monitorados pelos SNI e alunos desanimados. Algo sem vida.

Ao contrário, o Método Paulo Freire, era a própria vida, traduzida de forma compartilhada em pequenos sonhos, onde o saber era a própria luz. Partia da realidade de cada comunidade e a partir da apropriação de palavras comuns aos participantes. O resultado era surpreendente: em tempo recorde, em média 45 horas, homens e mulheres saiam lendo e escrevendo, como num passe de mágica. Era um verdadeiro ato de amor.

Como ele mesmo afirmava é necessário amar as pessoas e a vida para que se possa sonhar com um novo mundo.

“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os gestores públicos estão preparados para governar com o povo? E o povo?


O Curso Plano de Governo e Ações para Governar permite diversas discussões entre os gestores presentes e uma delas se refere em saber se os gestores estão preparados para governar com o povo. De forma tranquila, a maioria deles tem afirmado que não.
Apesar de ser uma resposta impactante, não deixa de ser interessante, pois ao assumir que não estão preparados, além de detectar um problema de gestão, ou melhor, um formato de gestão desassociado da população, chama para si a responsabilidade de refazer caminhos, de construir novos referenciais e mudar o que for necessário para que terminem suas gestões com projetos e políticas públicas, ao menos próximos da população.

Outra pergunta apresentada, completa a anterior, a partir de questionamentos levantados no próprio curso: e o povo está preparado para uma gestão participativa? Alguns afirmam que sim, porém a maior parte dos gestores chega à conclusão que não. Segundo a avaliação, a população está acostumada a cobrar e delegar a quem nem mesmo conhecem, em muitos casos em troca de pequenos favores, sendo que uma grande parte se recusa em participar.

Poderíamos aceitar isso como verdade, principalmente pela comodidade contida na resposta, porém como gestores de um partido de “esquerda” e que tem como eixo principal a implantação do Socialismo Democrático, essa resposta, além de comprometedora, deixaria a certeza de que não há solução para o combate de todas as desigualdades existentes na sociedade e assim o ato de governar ficaria restrito ao processo burocrático e a ocupação dessa importante parcela de poder.

Temos chegado à conclusão de que se trata de um conflito cultural, antes de ser político, pois expõe velhos conceitos e formatos, aonde o servilismo vem sempre à frente, o mercantilismo no processo eleitoral nem é notado, pois a sociedade exige resultados a qualquer custo.

Fazendo uma analogia com o mundo empresarial, regido religiosamente pelo “deus mercado”, em seu processo de modernização houve tentativas de mudanças, a partir da concepção das Teorias “X”, “Y” e “Z”, embora não seja tão fácil a mudança e a maioria não mudou, pois a noção capitalista de posse e lucro impedem mudanças mais significativas em termos de abertura, participação e gestão compartilhada. As mudanças ocorridas se deram mais pela necessidade do que por um processo de crescimento.

Ao olharmos para o universo da Gestão Pública, numa breve análise, muito mais emocional do que racional, a impressão que se tem é que a maioria dos espaços públicos ainda está na Teoria “X”. Segundo essa teoria desenvolvida por Douglas McGregor nos EUA depois da Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores seriam preguiçosos e necessitariam ser dirigidos, assumindo-se a mediocridade das massas trabalhadoras, a partir das seguintes premissas:
a) o cidadão médio tem uma inerente ojeriza pelo trabalho e, se lhe for permitido, não trabalhará;
b) as pessoas devem ser coagidas, controladas, dirigidas e ameaçadas com punições para que realizem o esforço necessário para que uma organização alcance seus objetivos; e
c) o cidadão comum prefere ser dirigido (a dirigir), prefere evitar responsabilidades, é pouco ambicioso e, acima de tudo, gosta de segurança.

Nota-se claramente que essa teoria enxerga o ser humano como máquina e assim, a única coisa que interessava era a produção em alta escala, com a simples troca em caso de doença ou diminuição na produção individual.
Por incrível que pareça, ao fazer um comparativo “ao pé da letra”, notamos claramente que a Gestão Pública para alguns, nem mesmo estaria na Teoria “X”, pois a noção é de completo abandono, da máquina pública, dos funcionários públicos e principalmente dos serviços oferecidos pela população, que mesmo essa população se constituindo como patroa de todo processo, pois é quem paga, o resultado é o mais precário possível.

Em resumo, pois se torna impossível aprofundar questões tão amplas, em tão pouco espaço, a resposta para ambas as perguntas, contrariando todo processo conservador, é que cabe sim aos gestores a preparação de ambientes que facilitem a compreensão do cidadão, por mais leigo que seja e principalmente os gestores busquem capacitação para  cumprir o papel de mediadores, no sentido de empoderar o cidadão e respeitar seu direito de participação e controle social.

Portanto, é necessária uma ação planejada para se conquistar o direito de continuar no caminho.

Como dizia Rousseau: “Para conhecer os homens, torna-se indispensável vê-los agir”.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

sábado, 14 de setembro de 2013

Gestão Pública: imagens de companheiros em curso em várias localidades do país

Curso Plano de Governo e Ações para Governar - Fundação Perseu Abramo


    Cuiabá/MT


    Charqueada/SP 

    Ribeirão Preto/SP

    Teixeira de Freitas/BA

    Ibicaraí/BA

    Anagé/BA
    LImeira/SP
    Ubatuba/SP
    Ronda Alta/RS
    Santo Cristo/RS
    Registro/SP
    Glicério/SP
    Itararé/SP
    Manaus/AM
    Florianópolis/SC
    Florianópolis/SC

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nova Classe Média ou nova Classe Trabalhadora?

Foto: sindipec.org.br

A classe econômica dominante no pais e seus representantes, como exemplo o PIG - Partido da Imprensa Golpista, insistem em dizer que há uma nova classe média no Brasil, mesmo tendo trabalhado durante muito tempo para que isso jamais pudesse ocorrer, concentrando riqueza em poucas mãos, suprimindo direitos essenciais e não criando novas oportunidades para a população menos favorecida.

No campo trabalhista, o exército industrial de reserva, nome dado ao acúmulo de trabalhadores desempregados, forçava para baixo achatando salários, colocando em risco os direitos conquistados e espalhando o medo, com o boato de que mesmo o emprego formal iria desaparecer, em função das crises e da falta de novos postos de trabalho. Há inclusive uma tese de alguns economistas mundiais, defendendo que é necessário, num país emergente como o Brasil e em pleno emprego, demitir 1/3 da mão de obra ativa, para que o mercado tenha novamente controle da situação. Ou seja, a volta do exército industrial de reserva. Trabalhadores unidos: é bom ficar em alerta.

Pouco a pouco, o governo do Ex-Presidente Lula e da Presidenta Dilma foram desconstruindo esse discurso e essas práticas perversas. Hoje, os trabalhadores brasileiros vivem uma nova fase, não só com o aumento da oferta de trabalho, mas principalmente em termos de qualificação profissional.

Não tem essa de nova classe média. Concordo plenamente com a Professora, historiadora e militante política Marilena Chauí, quando diz abominar esse termo, porque coloca os trabalhadores numa situação de pseudo igualdade com esse setor da sociedade, mesmo tendo claro que jamais serão respeitados como deveriam. Jamais estarão nos mesmo lugares, pois além do econômico existe a discriminação. A questão não é somente em termos econômicos, mas principalmente de respeito a quem teve seus direitos delapidados, a começar pelo bolso. Numa de suas falas Marilena afirma:

"Não chamem de nova classe média a esses trabalhadores que conquistaram alguns direitos fundamentais negados por tanto tempo. Não podem ser confundidos, pois existem várias contradições nesse segmento da sociedade que alimenta toda desigualdade. Chamem de Nova Classe Trabalhadora, que conquistou o direito de morar, estudar, trabalhar com carteira assinada e tantas outras conquistas".

O risco que ainda se corre é o fato dos direitos trabalhistas. Além de vários ainda não terem sido conquistados, apesar de mais de cem anos de  luta, os que foram conquistados correm risco de continuidade. É claro que a justificativa virá de outros argumentos, onde venda ilusão e entregue a escravidão, como já ocorre com algumas empresas do ramo da construção civil.

É necessário uma profunda reestruturação na vida sindical, modernizando essas entidades, reciclando seus dirigentes que se perpetuam no poder e principalmente mudando a forma de disputa, assim outra profunda reforma na legislação trabalhista, assegurando definitivamente os direitos já existentes e não suprimindo os direitos já conquistados.


Alguns links sobre o assunto:

1. Artigo da Professora Marilena Chauí: Nova classe trabalhadora: enigmas?
http://novo.fpabramo.org.br/content/nova-classe-trabalhadora-enigmas

2. Vídeo da palestra do Presidente da Fundação Perseu Abramo, Marcio Pochmann: Grupo de Estudos sobre a Nova Classe Trabalhadora.
http://www.youtube.com/watch?v=4eWkqXpOXvg


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Você tem "garrafinhas" para disputar o poder?

Foto: minhavidaeco-chique.blogspot.com

Certa vez ouvi uma frase que me deixou intrigado: “Só tem espaço nas grandes esferas de poder, quem tem garrafinhas para contar, mesmo para aqueles que já tenham provado sua capacidade”. Por mais incrível que pareça, as garrafinhas a contar em questão eram pessoas, da base de apoio de alguém, contadas por cabeça e transformadas em votos. O fato de tê-las próximas legitimava uma pessoa para uma vaga num conselho, num fórum, numa instância partidária e até mesmo para se lançar como candidato a qualquer cargo público. Quando olhei para mim, descobri imediatamente que pelas vias triviais jamais teria destaque junto às mentes centrais do poder, simplesmente pelo fato de não possuir nenhuma garrafinha para contar.

Sou do tempo em que ampliar a base de uma instância, se dava pela cooptação, pelo convencimento das ideias, pela afinidade, pelo amor à causa e principalmente pela identidade ao projeto, ou simplesmente pela sedução de caminhar juntos, de forma ampla, geral e irrestrita, onde cabiam todos e quanto mais as pessoas fossem instruídas e capacitadas, mesmo que viessem a discordar de quem o trouxe para o fórum em questão, mais dava prazer em participar, pois era sinal de que a linguagem estava clara e o projeto certamente seria fortalecido.

Sou daqueles apaixonados pela causa, um tanto velho na idade, mas jovem na essência e na ousadia, que abre mão de contar garrafinhas, só pelo fato de não querer transformar, sonhos em pesadelos, causas em ocupação de lugar ou ainda transformar a magia da participação em simples disputa para ver quem manda mais. Todo poder emana do povo e, portanto cabe ao povo esclarecido: discutir e construir seu futuro.

Assim foi coordenar um Conselho Popular de Habitação, coordenar a construção de 200 casas em mutirão, contribuir na organizar das rádios comunitárias, nos conselhos populares e mais recentes na ocupação de postos na gestão pública. Os espaços de poder, cedidos pelo povo, tem que ser com o povo compartilhado.

Tenho feito um longo debate, nas instâncias do partido que faço parte, no sentido de defender que toda mudança da sociedade tenha que começar e terminar na valorização humana, no respeito mútuo ao cidadão, colocando-o como protagonista de seu próprio destino e levando-o a entender que será tratado como pessoa e não apenas como número, pois se assim for, pelo menos para ele, o resultado sempre será zero.

Como homem aprendi que, apesar de viver numa sociedade machista, se não houver respeito para com as mulheres, que são as verdadeiras protagonistas da vida, tudo que fizermos será em vão, pois existirá sempre uma dívida a ser paga e uma lacuna a ser preenchida.

Como ser social, aprendi que se não tivermos uma causa para lutar, jamais completaremos a nossa missão, sendo que essa causa nasce num primeiro momento de forma pessoal e se consolida na medida em que compartilhamos o direito de sonhar.

Como militante político, jamais me interessou e jamais me interessará, nem a ditadura do proletariado, nem tampouco a manutenção de uma sociedade desigual e para isso se faz necessário, encurtarmos todos os dias a distância entre a teoria e a prática.

Como ser humano aprendi que algumas pessoas se deslumbram com poder, outras sofrem porque gostariam de estar lá, mas tem aquelas, que tornam sua vidas numa eterna subversão e desconstroem, dia após dia, as muralhas do poder vertical e são essas que   realmente me seduzem.

Amo poder contribuir com o crescimento intelectual das pessoas, porém isso não me transforma num intelectual, apesar de lidar bem com a criação, mas num militante de uma causa humana, onde a apropriação das pessoas dos velhos e novos conhecimentos possa provocar sempre a dúvida de quem deseja aprisioná-las e ao menor descuido se transforme numa grande revolução de conceitos e valores para a criação de uma nova sociedade, onde as pessoas sejam contadas como parceiras, a partir de suas histórias de vida e jamais como “garrafinhas”.

A teoria sem a prática vira 'verbalismo', assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade”.  (Paulo Freire) 


Quero apenas um sorriso sincero pela minha lealdade e a certeza de que ao por do sol alguém desfrutará dos pequenos gestos que pratiquei ao longo do dia.


Antonio Lopes Cordeiro
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Laboratório de Gestão e Políticas Públicas - Fundação Perseu Abramo

Curso Plano de Governo e Ações para Governar





Momentos do Curso em Florianópolis - SC

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sem memória, como chegar à verdade?

          Hellen Cristhyan*

Pauta de diversas disputas internas – que vão desde a forma de organização, seu caráter, publicização ou não dos relatórios – e polemica nas redes, que por um lado apresenta a pressão dos movimentos sociais que exigem respostas, e por outro aponta diversas ameaças de militares e seus co-réus, a Comissão Nacional da Verdade tem agora pouco mais de oito meses para chegar ao grande veredito.

Não será fácil. A começar pela Lei de Anistia Política instituída no Brasil em 79, que como diz Carlos Augusto Marighella, filho do Mariguella, foi “uma anistia de araque, viciada pela idéia de que a gente deveria, de alguma maneira, perdoar os torturadores"¹. A Anistia brasileira, apesar de carecer urgentemente de uma reinterpretação, quicar de sua anulação, não encontra no Estado disposição para fazê-la.

Dar nome aos bois também tem sido uma das grandes dificuldades da Comissão. O constante emprego de codinomes pelos carnífices do povo brasileiro, por vezes o rosto encoberto (da vítima ou do agressor), as roupas a paisana (sem identificação de patentes ou farda), dificultam a memória individual e coletiva das testemunhas.

Outro grande empecilho para a memória e a verdade são as violações institucionais, como as prisões sem ordem judicial, ou qualquer tipo de registro, reiteradas vezes ocorridas, violando direitos como o reconhecimento a personalidade jurídica e o direito das famílias de saber a verdade. Além disso, o esvaecimento de diversos arquivos daquela época deixa um vácuo atormentador. Mesmo que já comprovado a constante troca de informações e documentos entre todas as instancias policiais e do governo a época, não há quem dê conta dessa queima de arquivo.

Entretanto a verdade não poderá mais ser calada. O cálice de vinho e de sangue já fora derrubado e determina que haja justiça. Os facínoras estão envelhecendo e não podemos mais esperar, ou serão apresentados laudos médicos de suas incapacidades mentais, outros já estarão mortos, assim como não duvido que algum venha a perpetrar atentado contra a própria vida. Precisamos correr contra o tempo e deflagrar a criação de Comissão da Verdade em todas as entidades, instituições e organizações. É, por dever, que as universidades brasileiras abram seus arquivos, a constituição de CV em suas instancias é inegável para se fazer saber da luta de todos e todas estudantes e de quão repressor foram os Conselhos Universitários e suas instancias.

Sistemáticas operações e instrumentos do Estado, como o Departamento de Ordem Policia e Social (DOPS), a Operação Bandeirantes (OBAN), o Destacamentos de Operações de Informação – Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e suas promiscuas relações com empresas - como o financiamento da OBAN pela FIESP - e banqueiros não poderão ficar sem a devida investigação – rápida, profunda e eficiente. O Estado, comprometendo-se os governantes, pessoas jurídicas e sociedade civil têm por obrigação abrir todos os arquivos que remetam as terríveis arbitragens da ditadura.

O trabalho da CNV não é pouco para continuarmos a dar espaço para divisões internas e conflitos entre governantes e os movimentos. Para revelar a verdade sobre nossos combatentes e seus carrascos é necessário mais do que cavar os escombros da mentira no Brasil: sob o imperativo da Operação Condor, os Estados latinos exterminaram milhares de militantes de esquerda desintegrando-os, seja fisicamente, e até de forma documental, para alguns é como se nem tivesse passado pelas mãos do Estado e continuam desaparecidos até hoje. Urge a convocação, pela Presidenta Dilma, de uma reunião com os países da America Latina e também com as famílias de desaparecidos políticos e os movimentos sociais para sanar os conflitos, dar celeridade as investigações e acabar com essa tormenta de não saber onde estão nossos grandes homens e mulheres.

Se faz necessário imediatas parcerias entre a CNV e as entidades e organizações da temática dos Direitos Humanos para que as violações possam ter sua devida sentença, com punição aqueles que cometeram ou aprovaram/consentiram a realização dos crimes, como indica a Convenção Amareicana e a Convenção Interamericana.

Apurar fatos e chegar à verdade sobre uma época em que os registros públicos eram usurpados por belicosos, e de onde a memória das pessoas foi surrupiada através de mortificações diversas, como a cadeira do dragão e choques elétricos, a luz da legislação do regime dos milicos tem sido uma das maiores empreitadas investigativas do Brasil.

Ainda hoje a policia militarizada persiste em ‘estourar’ casas e aparelhos, continuando a violência institucional e a banalização do mal que aprendem nos livros e sites como o do grupo Terrorismo Nunca Mais – TERNUMA³ que dissemina o ódio contra pessoas e organizações com ideologia de esquerda, apresenta a velha argumentação de que tudo que foi feito foi em nome da Ordem, para proteger a nação do anarquismo. Grupos como este, ainda hoje, têm suas formulações no seio de estirpes militares e se infiltram na mídia para alimentar, por exemplo, a aversão aos médicos cubanos e a qualquer política publica que venham a trazer reparo social, direitos para todos e igualdade.

Esquadrões da morte não mais passarão! É preciso apresentar a sociedade todos os fatos cometidos por esses nazi-fascistas nos anos de chumbo para que seus comparsas – vivos e com suas brilhantes patentes ainda hoje, como por exemplo, os mandantes do desaparecimento do Amarildo, no Rio, que denuncia o extermínio da população pobre, e o identificado como Capitão Bruno² no ataque arbitrário a manifestantes no 7 de Setembro, no distrito federal, não continuem matando nossa juventude enquanto protestam por mais direitos, nem jogando nossos sonhos em valas clandestinas.

O que estamos a ousar fazer, e aqui falo das famílias de homens e mulheres mortos e desaparecidos políticos, de guerreiros e guerreiras que tombaram, dos movimentos sociais, das organizações pró-direitos humanos, das Comissões da Verdade e do próprio governo, não é apenas modificar os termos e títulos da narrativa militar contada no Brasil. A CNV, e a busca da memória deste país, ajudará a reescrever a história real do nosso povo, suas pelejas, lutas e lábaros, reescreveremos os nomes das escolas, das praças, ruas, espaços públicos e a verdade virá a tona. Para que nunca se esqueça, para que jamais aconteça.




*Hellen Cristhyan estuda economia na UFSC, milita no Coletivo O Estopim e ocupa a Secretaria Geral da União Catarinense dos Estudantes - UCE.