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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2015 poderá ser o ano da preparação da colheita




Do ponto de vista pessoal só tenho a agradecer. Afinal 2014 foi um ano e tanto. Não ganhei dinheiro, mas me empenhei no trabalho da Fundação Perseu Abramo e apesar de algumas pedras no caminho, ministrei 23 cursos em 8 estados, com 44 prefeituras presentes e 852 gestores. Juntando o trabalho de 2013 com 2014, agora já são quase 1600 gestores, técnicos, servidores, conselheiros, militantes políticos e lideranças comunitárias, que entraram na discussão do Plano de Governo e Ações para Governar e sonharam juntos por uma Nova Forma de Governar.

Ao fazer um balanço do ano de 2014 do ponto de vista político, vejo que os brasileiros mais ganharam do que perderam, mas, no entanto, após o período de democracia pós-golpe militar de 64, nunca tivemos um retrocesso político tão grande como o que tivemos esse ano. Realmente os monstros saíram da toca.

Vamos terminar ano de 2014 sem saber como será o comportamento em 2015 em termos políticos, econômicos e sociais. Quem de fato é de esquerda? Quem é de direita assumida? Quem está travestido só para confundir a população? Como conviver pacificamente com a ultradireita golpista que resolveu ir para as ruas pedir golpe militar e derrubar uma presidenta eleita democraticamente? Quais são de fato os governos que tem a coragem de governar com a população? Quem usa os mandatos para se beneficiar? O que fazer com o PIG – Partido da Imprensa Golpista, que tem lado e partido? Enfim... São muitas perguntas sem respostas precisas.

Eu diria que 2014 foi um ano para não ser esquecido durante um bom tempo. Porém, mesmo com o sufoco que foi o processo eleitoral, com características golpistas, hoje sabemos claramente quem tem compromisso com a democracia e quer um país livre das amarras dos EUA e do FMI e quem são os sabotadores da liberdade, os adeptos do nazi-fascismo e principalmente quem odeia pobres, nordestinos, homossexuais, etc. 

Em regras gerais era um ano, apenas para estarmos comorando mais uma vitória popular e dessa vez da única mulher que conseguiu se eleger e se reeleger Presidenta da Brasil e do outro a oposição decepcionada, mas, no entanto conformada com a derrota, afinal isso é a democracia. Porém, em nome da democracia (que deve ser avaliada de que democracia estamos falando), estamos comemorando sim esse grande feito, mas também em pé de guerra contra os habitantes das trevas, aqueles que querem golpe, impeachment e intervenção no processo democrático brasileiro, que já custou a vida de pelo menos algumas centenas de pessoas, além de termos esgotado todas as forças na luta contra a corrupção, que parece que se institucionalizou de vez.

Uma coisa é certa, na política não tem espaço para ingenuidade e muito menos para ingênuos. As regras são claras e esse sistema está falido. Ou se tem o povo participando do processo antes, durante e pós-eleitoral, ou terão que ter muito dinheiro para nutrir a indústria da eleição, com seus marqueteiros, os cabos eleitorais pagos e os seguradores de bandeiras. Chega a ser uma cena deprimente, pois muitos políticos chegam a dispensar os militantes para não serem incomodados na disputa interna e preferem as “garrafinhas”.

Enquanto não houver uma profunda Reforma Política, ampla, geral e irrestrita, que abale as estruturas corruptas do sistema e intervenha no custo das campanhas eleitorais, o chamado “Caixa Dois” será o único instrumento que a maioria dos políticos conhece para o alinhamento das disputas, apesar de ter algo novo no ar, além dos aviões de carreira, como bem dizia o Barão de Itararé. A lei anticorrupção (12.846/14) veio para punir corruptos e corruptores. Quem não acreditar é só ver como foi possível prender os donos das maiores empreiteiras do país. Foi e é fruto da lei sancionada pela Presidenta.

É inconcebível do ponto de vista humano, uma campanha eleitoral para deputado estadual custar entre 5 a 10 milhões de reais e para deputado federal de 10 a 15 nos grandes centros. Quem banca isso? De onde vem todo esse dinheiro? Como isso será pago? Quais os reais interesses dos financiadores? Para quem pensa assim e trilha por esse caminho, povo é a última palavra a ser pronunciada. Eleitores sim. Povo junto não! Cabos eleitorais sim. Militantes juntos jamais!

Vamos direto ao ponto. Um prefeito ou uma prefeita, de um partido que se diz de esquerda ou ainda popular, que não faz gestão participativa, ou seja, governa de gabinete, primeiro está traindo as convicções a que se propôs e segundo necessitará de muito dinheiro para tentar sua reeleição ou ainda para sua sucessão. A única forma de baixar o custo de uma campanha eleitoral é uma ampla aliança com a população. Essa aliança pode ser construída nos Fóruns Temáticos, nas Conferências, nos Encontros, nos Seminários, no Orçamento ou no PPA Participativos e em todos os canais criados para esse fim. O que não dá é ouvir que não se faz gestão participativa porque o povo não participa ou ainda porque não está preparado. A população não quer é ser enganada e espera o convite para participar.

Vou radicalizar ainda mais. Não dá para permitir que a velha mídia direitosa e partidária banalize a situação, que generalize afirmando que todos são iguais, ou ainda que todos roubem. Isso além de ser uma grande mentira, na verdade é um espelho da própria mídia, que morre de medo de ser avaliada e controlada por um conselho e que só defende quem na verdade se compromete financeiramente com ela. Tem muita gente séria querendo fazer o que é certo e sendo interrompida por lobistas ou aproveitadores de plantão. Além disso, tem muita gente fazendo belas coisas, gerando políticas públicas de alto valor social por esse Brasil afora. Só falta um espaço para ser divulgado.

Sem medo de errar posso afirmar que o ano de 2015 será muito melhor que 2014, pois a Presidenta Dilma foi reeleita, a expansão econômica continua e centenas de projetos já criados e outros em andamento ganharão vida nova e novos atores. Quem tem que fazer a parte deles é os prefeitos e prefeitas, governadores e governadoras, além do Congresso Nacional, que ao invés de surfar em ondas golpistas, poderá contribuir e muito para a melhoria da qualidade de vida da população, ao fazer novas leis e moralizar a casa expulsando figuras maléficas como esse deputado que se mostrou como um verdadeiro estuprador, por exemplo.

Imagino que a coisa será mais séria para os prefeitos e prefeitas, pois quem não fizer o que tem que ser feito nesse ano irá perder a reeleição ou a sucessão. Porém, para aqueles e aquelas que plantaram e continuarão a plantar, será o ano da preparação da colheita.

Termino o ano acreditando que dá para construir sonhos, tanto individuais como coletivos. Dá até para se comprometer com alguns deles, afinal todo militante de uma causa é antes de tudo um sonhador. O que não dá é para admitirmos e convivermos com pessoas que vendem ilusão, pois além de enganar muita gente, acaba matando talvez o último sonho de quem acabe de acordar para a realidade.

Do ponto de vista pessoal, vou entrar o ano novo entusiasmado, pois além do trabalho que faço atualmente de capacitação em gestão em determinadas prefeituras, irei prestar outros serviços de gestão e pesquisas, em parceria com outros profissionais, através da empresa A.L.C. Planejamento e Gestão, criada especificamente para esse fim.

Cada vez que ministro uma capacitação em alguma prefeitura do país, volto acreditando de fato que o melhor ainda está por vir, tamanho é o entusiasmo dos participantes.

Quero desejar a todos e todas que de alguma forma estiveram junto comigo nessa caminhada de militância de uma causa humanística, um Feliz Ano Novo de muita paz e de muitos projetos inovadores que possam incluir quem se encontram excluídos da sociedade.

Feliz 2015 para todos e para todas!
Antonio Lopes Cordeiro
Coordenador do Programa de Capacitação em Gestão Pública
Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro@ig.com.br

domingo, 21 de dezembro de 2014

Uma pequena vereda chamada Esperança



Quero iniciar esse post afirmando com plena convicção de que todo militante de uma causa é por princípio um sonhador e no decorrer de suas vidas vão tecendo seus sonhos ao fazerem novas pessoas também sonharem. É com esse sentimento que encerro meu trabalho na Fundação Perseu Abramo por esse ano, com a certeza de que de alguma forma, o trabalho colaborou para que muitas pessoas voltassem a sonhar e colocassem seus sonhos a serviços também de uma causa.

Ao lembrar-me dos 37 encontros em cidades sedes, realizados em 2013 e 2014 com os Cursos: Plano de Governo e Ações para Governar e Empreendedorismo Social e Economia Solidária da Fundação Perseu Abramo, as primeiras coisas que me vem à cabeça é que é impossível transformar a sociedade, cometendo os mesmos erros e desvios de conduta que os maus gestores cometeram e cometem e deles se alimentam, pois além de banalizar a máquina pública como uma terra de ninguém e a política como uma coisa somente para políticos de carreira, o ato de governar torna-se uma desagradável e cara brincadeira para a população. No entanto diante de velhos vícios e práticas muitas vezes desprezíveis, milhares de sonhadores e sonhadoras desafiam a lógica do poder vertical e constroem pequenas mudanças que fazem e farão grandes diferenças no futuro, pois por baixo de cada uma dessas mudanças existe um alicerce chamado participação popular.

Acredito que foi com esse intuito que na gestão do companheiro Marcio Pochmann, frente à Fundação Perseu Abramo, foi criado a Área do Conhecimento, composta pelo Laboratório de Gestão e Políticas Públicas e pelos Cursos de Mestrado, Pós-Graduação, Difusão do Conhecimento e pelo Programa de Capacitação Continuada em Gestão Pública nas prefeituras onde o PT está presente, com o principal objetivo de fortalecer o Modo Petista de Governar, Legislar e se relacionar com a sociedade.

Através do conhecimento, velhos padrões de governança vão sendo questionados e enfrentados, ao mesmo tempo em que se inicia um trabalho rumo a governância (entendida neste contexto, como o desafio de governar a várias mãos). Podemos até afirmar que de alguma forma está ocorrendo uma intervenção nesse emaranhado de códigos que é o poder, no sentido de desvendá-los e o mais importante é que isso possibilita atuar nas raízes dos problemas, que antes de serem de ordem política são culturais e de egos. O grande desafio na consolidação da mudança vem do fato de tornar uma política pública numa política de governo, onde a população se aproprie, como é o caso do Programa Bolsa Família, por exemplo.

A velha forma de fazer política no Brasil agoniza, ao perder completamente seus créditos, seja pela falta de interesse da população, que ouve, lê ou assiste todos os dias que política é uma coisa ruim e que todos os políticos são ladrões, pregados pelo PIG – Partido da Imprensa Golpista; seja pelo distanciamento provocado pela maioria dos gestores, independente do cargo que ocupam que querem a população bem longe para não atrapalhar seus escusos interesses; seja pela cultura mercantilista de como os parceiros de um governo se juntam para disputar uma eleição, onde o escambo fala mais alto; ou ainda pela banalização por muitos gestores no trato com o dinheiro público, que escoa pelo ralo da corrupção e resulta na péssima qualidade dos serviços prestados para a população. 

Essas práticas fazem com que cada vez mais a população se afaste do que é político e aposte todas as fichas em pessoas ao invés de projetos, além de escolher seus representantes pelo rótulo e não pelo conteúdo. Logo, a política que deveria ser um meio para mudanças importantes na qualidade de vida da população, passa a ser um grande negócio e uma porta sempre aberta para os aproveitadores de plantão. 

É importante não generalizar, pois no meio de tudo isso, valorosos homens e mulheres, se esforçam para fazerem um bom trabalho, mesmo sem conhecimentos técnicos e vão fazendo o que tem que ser feito. Alguns desses conseguem e não divulgam e outros às vezes não fazem por falta de condições objetivas, mas como estão próximos da população, através de um modelo de gestão participativo, minimizam os problemas e criam novos canais participativos de convivência.

É fundamental ressaltar ainda que há pouco mais de dez anos, não existia nenhum curso de gestão pública no Brasil. Apenas de políticas públicas, pois é muito mais fácil discutir políticas do que gestão, pois essa requer que se discuta também o modelo político-ideológico que a formatou e a mantém.

O conteúdo que formatamos para o curso de gestão “Plano de Governo e Ações para Governar” da Fundação Perseu Abramo leva os participantes a um longo debate sobre gestão e sobre o papel dos gestores e começa questionando a quem pertencem os mandatos. Normalmente a resposta encontrada é surpreendente, pois mesmo os participantes detectando que constitucionalmente pertence ao povo e pelo arranjo político também aos partidos da base aliada, em muitos casos chegam à conclusão de pertencem aos próprios gestores. Isso faz com que na prática haja um deslocamento de poder, que fica concentrado nas mãos de alguns iluminados, que acabam repetindo a velha máxima que alguns nascem para fazer e outros apenas para elegê-los.

Em outro momento do curso, a pergunta é se os gestores estão preparados para governar com a população, ou ainda se a população está preparada para atuar junto com o governo, desde que seja convidada. Em regras gerais os participantes respondem que não para as duas e também chegam à conclusão que em muitos governos, a forma mercantilista escolhida pelo grupo que governa, desde o processo de alianças, passando pela ampliação da base de apoio nas Câmaras Municipais, aliada a cultura do poder verticalizado, onde se elege um semideus para governar, impedem a integração de governo e torna cada parte da gestão pública numa nova prefeitura e, portanto em “caixinhas de poder” quase intransponíveis. Infelizmente esses fenômenos ocorrem na maioria dos municípios brasileiros. De quebra, por falta de planejamento, tudo passa a ser urgente.

Só há integração de governo quando os gestores se comprometem com o resultado final desse governo, ou seja, com o Plano Estratégico e só há participação reeducando a população para se apropriar de seus direitos.

Duas experiências, dentre outras poderiam ser citadas como exitosas, tanto no processo de participação como principalmente de integração de governo. A primeira na cidade de Artur Nogueira na gestão do Prefeito Marcelo Capelini, com a criação do Grupo Gestor de Integração e Planejamento e a segunda em Osasco na gestão do Prefeito Emídio de Souza com a criação da Sala de Gestão e Planejamento. Ambas as experiências são apresentadas no decorrer do curso e os participantes discutem se as gestões das suas cidades estão preparadas para experiências como essas.

Vale ressaltar que o curso não entra na discussão se os gestores presentes, principalmente os que encabeçam o processo, querem que a população de fato participe da formulação e do controle das políticas públicas, pois além de ser constrangedor, caso o prefeito ou a prefeita, ou ainda os secretários e secretárias caminhassem noutra direção. Até porque, seria inadmissível que uma prefeitura governada por um gestor do Partido dos Trabalhadores, negasse o direito de participação e de controle social, principalmente aos movimentos sociais organizados, principalmente porque o partido lutou muito para que esses direitos saíssem do papel institucional e virassem direitos indissolúveis. A Presidenta Dilma em seu Plano de Governo coloca a Participação Social a partir dos Conselhos de Base, como uma estrutura determinante na consolidação da democracia e das políticas de direitos.

Outra pergunta debatida no curso é um questionamento se o ato de governar é um meio para as mudanças efetivas necessárias na sociedade ou um fim em si mesmo. A maioria dos participantes chega à conclusão de que deveria ser um meio, sendo que para isso seria necessário que os gestores transformassem o seu dia a dia diante da máquina pública e na relação com a sociedade num ato de militância permanente, principalmente para não se deixassem seduzir pelo “canto da sereia”. Ou seja, muito dinheiro fácil a ser administrado e muito desconhecimento de controle por quem mais necessita. Essa é a combinação perfeita para o que Paulo Freire chamava do que é diabólico na política, onde o que é simbólico e necessário para a população, se não tiver participação cidadã, corre o risco de desaparecer ao longo do tempo, ficando apenas no visual da construção daquela tão sonhada ponte. 

Além de outros questionamentos durante seu percurso, o curso aprofunda o debate com a indagação de que sociedade temos e que sociedade queremos. Uma ampla reflexão entre o presente e o futuro. Entre os valores reais e os subjetivos, evitando que o “ter” passe a ter mais importância do que o “ser” e a necessidade da construção de uma sociedade inclusiva, justa, fraterna e igual para todos e todas esteja à frente de todas as políticas públicas e as ações de um governo. Esse tipo de análise ajuda bastante na formatação de um planejamento futuro do município, desenhando cenários de como a cidade deveria ser nos próximos dez ou vinte anos, além de comprometer os gestores frente à população. 

Em regras gerais, o curso é uma viagem no universo da máquina pública e no ato de governar. Nesse momento do curso os participantes chegam à conclusão de que ao tornar o ato de governar um meio para uma possível transformação na sociedade, descobrem também que para isso ocorra terão que lutar contra uma sociedade de plenos interesses, contra toda forma de discriminação, contra quem usa a máquina pública para se beneficiar ou para beneficiar sua próxima campanha eleitoral e principalmente contra o desconhecimento do jogo político, que produz os semideuses e os chefes de plantão como seus verdadeiros guardiões e afasta a população dos seus direitos e de entender minimamente sobre a política e sobre o papel dos políticos.

O impressionante é que tudo ocorre em nome da democracia. Potencializando-se a democracia representativa e obviamente fugindo da democracia participativa e direta. Desse universo vêm os avisos: “A população não está preparada para a participação”. “O povo votou em nós para que fôssemos seus legítimos representantes”. Assim, a participação fica apenas nas audiências públicas às 9 horas de uma manhã qualquer.


Ao levar os cursos a 37 cidades sedes, nas cinco regiões do país em 12 estados, atingindo um público presente de 176 prefeituras e quase 1600 gestores, técnicos, servidores, conselheiros, vereadores, militantes políticos e lideranças comunitárias, chego à conclusão de que uma revolução silenciosa está em curso. Mesmo com o fato de muitos prefeitos e prefeitas não participarem e às vezes nem mesmo todos os secretários e secretárias, a base do governo participa que é quem de fato põe a mão na massa e para esses o curso fará uma grande diferença, hoje, amanhã e sempre. Isso está expresso nas mais de 1500 avaliações, com um profundo agradecimento. 


No ano que se aproxima terá muito mais. O desafio agora é levar esse trabalho aos 26 estados brasileiros e fazer com que a Vereda chamada Esperança que leva as pessoas aos seus sonhos de possuírem uma vida digna, principalmente aos cidadãos e cidadãs que mais precisam, passe a ser o único caminho trilhado por homens e mulheres que governam, legislam ou se envolvem em atividades políticas e sociais em nome do Partido dos Trabalhadores.

Como dizia Paulo Freire, o que move a vida de um militante é a utopia de mudar radicalmente essa sociedade injusta juntando-se a companheiros e companheiras que transformam suas lutas do dia a dia no grande projeto de suas vidas. 

Acreditem – o melhor ainda está por vir.
Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada em Gestão Pública
Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro@ig.com.br

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

De que lado você está?



O dia 31 de março de 1964 ficou marcado na minha memória como o dia em que ouvi um estrondoso tiro de canhão e o som daquele tiro ainda hoje está presente na minha memória. Uma criança de apenas dez anos de idade assustada pela voz da ditadura.

Por certo esse tiro isso não ocorreu, mas o terrorismo plantado através do rádio, que era o único veículo de comunicação da época presente na vida dos brasileiros, foi de extrema eficiência. A voz de Ranieri Mazzilli, então Presidente da Câmara de Deputados, anunciando que João Goulart tinha abandonado a Nação e que o cargo de Presidente da República estava vago, era a dose certa para espalhar o medo e iniciar o terrorismo, tudo em nome da luta contra o comunismo e da restauração da ordem. 

Sem querer descrever a história, que se encontra em detalhes em alguns livros e hoje através das redes sociais e da internet, vale lembrar que tudo isso ocorreu após a renúncia de Jânio Quadros, que morreu dizendo que “forças ocultas” lhe fizeram renunciar, aonde uma das possibilidades desse fato vem da Loja P2 da maçonaria e João Goulart como seu vice assume o cargo e faz uma das maiores reformas que o pais já realizara, finalizando com a decretação da Reforma Agrária e a nacionalização das refinarias estrangeiras de petróleo.

Os medos da época? As posições de Jango consideradas de esquerda, que planejava Reformas de Base, que visavam reduzir as desigualdades econômicas e sociais. Com isso, a elite econômica da época temia que tais medidas afetasse seu poder econômico e assim faziam de tudo para enfraquecer o Presidente Jango, com o pressuposto de era comunista, principalmente após sua visita à China, exatamente como dizem que o projeto de Dilma é bolivariano.

Quem dominava o Congresso Nacional da época? Os representantes da elite. Esse foi o cenário do golpe militar que durou mais de 20 anos e assassinou quase 500 pessoas, declaradas de acordo com a Comissão Nacional da Verdade, fora as mortes ainda hoje não esclarecidas, como por exemplo, as 1049 ossadas descobertas numa vala comum do cemitério de Perus quando Erundina era Prefeita de São Paulo, com muitas crianças entre elas, que não só não foram identificadas, como também não fazem parte das estatísticas oficiais. Um verdadeiro tempo de trevas.

A sustentação do golpe se deu, não só pela força sanguinária dos militares, mas principalmente com a conivência de grande parte da população, a começar pela sua Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apoio dos meios de comunicação, como o Jornal Folha de São Paulo que emprestava carros para o transporte de presos políticos para os porões da ditadura ou ainda a FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que financiou a Operação Oban, um dos braços econômicos da ditadura.

Pela descrição e por infinitas situações não descritas nesse pequeno texto, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade foi extraordinário e corajoso, pois não só revela os monstros como pede punição aos mesmos. Não pode ser esquecido que no meio de tudo isso, 210 pessoas foram simplesmente deletadas da sociedade. Os militares assassinaram e sumiram com os corpos, tal qual a descrição em detalhes feita por George Orwel no seu livro e filme “1984”. 

Qualquer semelhança com os ocorridos nos dias atuais, desde as manifestações de junho do ano passado, passando pelos reacionários direitosos que apoiaram Marina e Aécio nas últimas eleições, chegando aos nazifascistas que vão à Paulista pedir a volta do golpe militar e a queda da Presidenta Dilma, não é mera coincidência. Faz parte dos instrumentos de dominação econômica, que alimenta o poder e engorda a velha e a nova elite brasileira, responsáveis por toda discriminação e desigualdades econômicas e sociais existentes.

Ao fazer esse breve relato fico imaginando se temos solução para esses fatos históricos e respondo que sim. Porém, apenas quando a sociedade brasileira se organizar e enfrentar de dentro para fora quem as explora, a começar por cada cidadão e cidadã que se coloca como líder, mas que agem como verdadeiros ditadores e que têm que ser combatidos.

Num país capitalista ou ainda numa ditadura para mantê-lo, como o que ocorreu na América Latina, os aliados do sistema são os mesmos, justamente para não perderem a hegemonia e nos dias atuais com uma dose diabólica, pois até o discurso da esquerda foi sequestrado. Enquanto isso ocorre e é reforçado nos editoriais diários do PIG, a população desinformada e alienada através do conteúdo ideológico, nega a intervenção e se aliam por ação ou por omissão.

Na atualidade, o que está em jogo, como bem disse o Lula em determinada ocasião do processo eleitoral, não é apenas a eleição de Dilma versus Aécio e sim um projeto que de alguma forma liberta o país das amarras internacionais e inclui a população menos favorecida, versus um projeto da volta ao poder dos aliados do sistema internacional neoliberal, onde o grande compromisso é a manutenção da hegemonia elitista. Falo isso, mesmo sabendo que pouca coisa será mudada no sistema capitalista, mas a possibilidade de restaurar um Estado de Bem Estar Social, que pelo menos se responsabilize com os desvalidos do próprio sistema, enquanto se prepara a sociedade para um enfrentamento na raiz do problema.

A partir desse cenário político ideológico, a maior importância do momento está voltada para uma grande Reforma Política, que comece por cada cidadão ou cidadã que se propõe a ser um representante da população. É necessário discutir quem deve financiar uma campanha política e de onde virão os recursos que hoje são privados, mas também qual a importância de ser um eleito. Ou seja, que se pergunte a quem pertencem os mandatos, qual o papel da população, qual o papel dos meios de comunicação, que mesmo sendo uma concessão pública, servem apenas ao sistema e principalmente o que se quer quando se chega ao tal do poder, onde a maioria dos eleitos e das eleitas serve a eles mesmos e não à população.

Não dá mais para que os partidos se mantenham como uma República de Mandatos, onde todos os cargos partidários são determinados pela cúpula ou ainda pelos eleitos. No meio de tudo isso, como respeitar um indivíduo ou uma indivídua que trata os filiados de um partido ou os associados de uma organização como “garrafinhas” e em nome delas negociam seus destinos? Infelizmente no modelo atual são essas figuras que ocupam os espaços de poder e sobrevivem a partir do tráfico de influências. As pessoas que não possuem as tais “garrafinhas”, sequer são convidadas para o grupo que toma decisões.

Para aprofundar a crise, como respeitar alguém que se diz dono de uma ONG ou de uma OSCIP, com a desculpa de que são benevolentes pela justiça social? Essas mesmas pessoas se estivessem à frente de uma cooperativa ou de uma entidade sindical, por exemplo, também se sentiriam donas e anulariam qualquer possibilidade da base intervir. Afinal, o tal “terceiro setor”, nasceu apenas para dar manutenção ao “Estado Mínimo” e substituir o Estado em suas funções sociais, conforme afirma Paulo Nogueira Batista em seu livro “O Consenso de Washington”.

O processo eleitoral de 2014, apesar de sinistro, pois revelou os monstros que estavam nas tocas e suas verdadeiras intenções, foi rico em detalhes e nos expôs as cicatrizes do poder. Estamos e continuaremos divididos, pois assim é o sistema. De um lado que se satisfaz com a discriminação de toda ordem, com o machismo e principalmente com as desigualdades econômicas e sociais, pois sempre precisaram da população carente para servi-los e de outro quem dá a vida, se necessário for, como ocorreu nas ditaduras brasileiras e da América Latina, em prol da liberdade e do combate a todo tipo de injustiça.

Por fim, a grande pergunta que temos que fazer para muitas pessoas que conhecemos e outras que consideramos companheiros e companheiras, mas enxergamos visivelmente seus desvios, é: DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?

Se a pessoa responde que também se indigna com as injustiças cometidas e está disposta a enfrentá-las a partir de um projeto coletivo, estamos juntos. Porém se a resposta for de que a única saída é a de se aliar às forças sinistras, mesmo que seja um pouqunho, pelo bem da sociedade, além dessa pessoa está mentindo, pois na verdade está aliada ao sistema, está traindo as convicções de quem sempre colocou a vida em jogo para defender a população menos favorecida. Nesse caso jamais estaremos juntos.      

Não há outra forma de conhecer uma pessoa do que dar a ela o que sonha. A partir de então cada pessoa vai formatando seu projeto de vida. Devemos apenas lembrar o que a minha mãe sempre afirma: “Diz com quem andas que direi quem te és”. Na po

Quero encerrar com uma afirmação: “Ou a sociedade de bem reage de forma organizada a essa onda de neoconservarodismo ou corremos o risco de voltarmos ao dia 31 de março de 1964 e tudo em nome da ordem o do progresso”. Os atores são os mesmos e os motivos também.

Além disso, um militante de uma causa quando saí dessa vida a única coisa que deixa é a sua história e como já sabemos, não podemos mover uma linha do passado, mas podemos reescrevê-lo hoje e amanhã, fazendo com que no futuro possamos também reescrever a história do Brasil. 

Antonio Lopes Cordeiro
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada em Gestão Pública
Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro@ig.com.br