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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Porque a velha mídia não quer ser controlada


Julian Assange  do Wikileaks, afirmou que um dos maiores problemas do Brasil está na centralização da imprensa nas mãos de apenas seis famílias. Essas famílias controlam sozinhas 70% de toda a imprensa do país e por ela passa apenas as informações que interessam aos donos desses veículos e tudo que eles considerarem que é contra seus interesses econômicos e políticos será duramente combatido.

Podemos dizer que a afirmação de Assange pode ser considerada como generosa perto do que vivemos no dia a dia das rádios, TVs, Jornais e Revistas. O povo brasileiro lê, assiste e ouve diariamente, as maiores barbaridades contra os interesses populares e com direito de resposta apenas restrito a quem ganhar na justiça.

É evidente que ao responder uma afirmação como essa, os órgãos da imprensa ligados ao PIG – Partido da Imprensa Golpista, irão ter uma reação ou bastante evasiva, ao sugerir que a imprensa é democrática, imparcial e serve aos propósitos democráticos do país, ou radicalizarão dizendo que é coisa do PT ou de setores de esquerda. Dirão ainda que um instrumento democrático como um conselho, será uma mordaça à democracia, um golpe na tal liberdade de imprensa e de expressão e bla...bla...bla.

O que há de concreto é um oligopólio midiático, com um histórico de atrelamento dos meios de comunicação no país a quem está no poder e interessa aos seus proprietários, sendo que esse atrelamento vai desde uma postura de complacência com seus candidatos, até um boicote geral aos representantes das lutas sociais e dos interesses da população excluída da sociedade. Defendem todo poder ao mercado e o encurtamento cada vez maior do poder do Estado poder nenhum para a população organizada, suas instâncias e seus representantes.

Para que se tenha uma ideia do oportunismo dessa mídia, dados apresentados no livro Retrato em Branco e Negro, da autora Lilia Moritz Schwarcz, revela que a maioria da imprensa na época da abolição era escravagista e quando viram que a abolição iria acontecer de qualquer jeito, imediatamente viraram abolicionistas. Não é diferente de hoje, apenas com uma diferença, onde os campos ideológicos estão muito mais difíceis de detectar. Quem é a direita? Está travestida de centro. Quem é o centro? Está travestido de esquerda.  E quem é da esquerda? Essa é uma grande e necessária reflexão a ser feita, pois num primeiro momento muito se dizem, porém na hora de construir as alternativas ficam muito poucos.

O Jornalista Vilson Vieira Jr. Revela, que um importante estudo feito em 2002 pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom), denominado “Os donos da Mídia”, abrangendo o universo dos meios de comunicação no Brasil, mostra que as redes: Globo, SBT, Bandeirantes, Record, Rede TV! e CNT, estão organizados em 668 veículos em todo o país. São 309 canais de televisão, 308 canais de rádio e 50 jornais diários, além de 138 grupos regionais afiliados de televisão do Brasil.

De acordo com os dados coletados, o sistema brasileiro de televisão é composto, atualmente, de 332 emissoras, sendo que 263 estão vinculadas às redes Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV! e CNT. Segundo a pesquisa, Globo e SBT possuem, respectivamente, 20 e 11 emissoras próprias, o que não é permitido pelo decreto-lei 236/67 em seu artigo12, o qual determina que uma mesma entidade só pode deter um máximo de 10 concessões de radiodifusão de sons e imagens (TV aberta) em todo o território nacional.

Ainda segundo o Jornalista Vilson Vieira Jr., outro estudo, divulgado pelo Epcom em 2006, destaca uma relação direta existente entre o poder econômico de uma região e o grau de concentração e de pluralidade dos meios de comunicação, o que, consequentemente, leva a uma distribuição extremamente desigual no que se refere ao acesso desses meios a toda a sociedade. Quanto mais pobre é a região maior é o nível de concentração da mídia, ou seja, menor é o número de agentes que detém veículos como rádio e TV, sendo que o Produto Interno Bruto (PIB) está diretamente relacionado à quantidade de emissoras de radiodifusão e operadoras de TV por Assinatura nos estados. Neste caso, as regiões Sul e Sudeste abrigam, segundo a pesquisa, o maior número de emissoras e retransmissoras de TV (cerca de 4 mil, de um total de 10.514 no País), 1,6 mil rádios comerciais e educativas (de 4.392 no total), 900 emissoras comunitárias (de 2.513 em todo o País) e mais da metade das operadoras de TVs a cabo (55% das 298 em todo o país).

Há um pouco mais de dez anos eram nove famílias e agora apenas seis representam os clãs que comandam o oligopólio midiático no Brasil. As famílias Abravanel (SBT), Civita (Editora Abril), Frias (Folha de S. Paulo), Marinho (Organizações Globo), Saad (Rede Bandeirantes) e Sirotsky, à frente da Rede Brasil Sul (RBS).

Esses instrumentos de comunicação ditam as regras de comportamento, indicam seus candidatos livremente, vendem a ideia de que todos os políticos são ladrões e que todos os partidos políticos são de mentirinha, como quer o Presidente do STF. Além disso, fazem um enfrentamento diário e sistemático contra o PT, MST, sindicatos, partidos de esquerda, lideranças populares e qualquer situação que tirem sua hegemonia, como foi e é o caso das Rádios e TVs Comunitárias, sem contar que plantam uma mentira e esperam quem venham desmentir. Como a população menos favorecida não tem como agir e muito menos reagir compram aquela informação como verdadeira.

O que fazer? Instrumentalizar a população no sentido de saber usar os instrumentos disponíveis. Dar voz ao povo, principalmente à população menos favorecida.  

Colocar wifi em praças públicas, por exemplo, como fez o Prefeito Haddad, criar Rádios e TVs Comunitárias, ensinar a população como usar as mídias sociais e democratizar essa relação com o uso dos telecentros, pode ser um caminho para ampliar a democratização das informações.

Porém, sem um Plano de Comunicação Social participativo nos municípios e a coragem de discutir a criação de Conselhos Deliberativos de Comunicação em todos os níveis, não se chegará ao controle absoluto da comunicação no Brasil.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão e Políticas Públicas da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A elite brasileira adoraria um país somente dela


O que tem a ver o Brasil real com o Brasil surreal pintado pela elite econômica e mantida pela classe média, caso eles estivessem no poder? Em regras gerais poderíamos responder que nada, porém uma cultura forjada pela elite brasileira e sua direita raivosa, vai moldando através das novelas, dos editoriais de rádios, tvs, jornais e revistas, além dos hábitos herdados do dia a dia um país extremamente surreal e segmentado.

Lembro-me da primeira vez que a minha amada mãe me disse para não tomar leite e chupar manga a seguir, que com certeza faria mal? Por certo minha mãe tinha aprendido com sua mãe que certamente aprendeu em sua época. Existe algum estudo científico que comprove isso? Que eu saiba não. Esse é um termo que tem como herança o triste momento de escravidão no país. Onde a necessidade de afastar os escravos dos pés de mangas e principalmente de peitos das vacas, relegando-os às sobras da Casa Grande, enquanto a Senzala passava sérias necessidades, ressoa pelos rincões brasileiros, como se ainda hoje representasse uma verdade absoluta.

Outra maléfica questão difundida nacionalmente vem do fato de que também nos ensinaram que política, religião, nem futebol não se discutem. Alguém pode nos dizer o porquê? Talvez o futebol a gente entenda, até pelo machismo que o mesmo representa, além da promiscuidade financeira que está metido e até mesmo a religião, com o pressuposto de preservar a maioria católica, porém a política tem um endereço certo: afastar qualquer possibilidade de domínio popular da ciência e da prática política, na medida em que para eles, política é coisa para políticos e assim, basta votar num herói que tenha nascido para isso, que suas necessidades serão atendidas.

Sem contar outros absurdos contidos na história do país, como o Brasil ser descoberto se estava habitado pelos índios, como os Bandeirantes serem pintados como desbravadores, quando na verdade matavam os índios e delapidavam pedras preciosas, ou então Calabar ser tratado como um traidor, quando na verdade ficou do lado dos holandeses apenas pelo fato de enxergar uma possibilidade de liberdade do seu povo.

Querem mais duas? Quem sabe com nasceu o termo “Terra grilada?” ou o termo “Santo do Pau Oco”. Vamos lá para as explicações.

No caso da “Terra Grilada”, é sabido que até 1850 o país não possuía uma Lei da Terra, sendo regido pela Lei das Sesmarias, criada em Portugal em 1375 e trazida pelos portugueses. Em sua origem essa lei pretendia fixar os trabalhadores rurais às terras e diminuir o despovoamento. Quando a primeira Lei da Terra foi promulgada, o governo brasileiro (português), disse o seguinte: “Ora, pois, pois, quem apresentar para o governo um documento antigo de posse da terra onde está, ganhará sua propriedade”. Legal não, é? Pois então. Praticamente ninguém tinha. O que fez o “jeitinho brasileiro”? O indivíduo ia ao cartório e fazia o documento. Como o papel estava novinho, deposita-o numa gaveta juntamente com diversos grilos e tempos depois o papel estava amarelado, parecendo que tinha sido feito há muitos anos. De uma sacanagem nasceu o termo “Terra Grilada”.

Porém, sacanagem ocorreu com as imagens. Ocas que eram, vinham em procissão de Portugal para o Brasil vazias e voltavam repletas de ouro e pedras preciosas, também em procissão e o mais incrível: ninguém nem desconfiava.

Na atualidade a coisa continua com a velha mídia, que faz um papel ridículo de servir somente a um lado, de informar apenas o que esse setor deseja e plantar falsas informações, somente as vezes para levantar a dúvida. Alguns exemplos: Nenhum partido no Brasil é sério. Todo político é ladrão. O país está quebrado. A direita organizada, mesmo que para um golpe, isso é chamado de democracia. O Brasil tem um grande gasto social (Ao se referir aos projetos sociais). O tal do terceiro setor surgiu para suprir o Estado falido. O governo federal está perdido e tantas outras teorias da conspiração.

Na verdade a elite brasileira e o seu braço fiel que é a classe média, através do PIG (Partido da Imprensa Golpista), destila seu veneno por uma raça pura. Um Brasil sem cotas, sem negros, sem periferia, sem homossexuais, sem escolas públicas para os pobres, sem pessoas com deficiência, só com partidos de direita, sem sindicatos, sem greve, sem manifestações contra eles, pode apenas contra o PT e o governo federal, enfim um país branco, racista, machista e homofóbico. Isso seria o sonho. Onde os pobres existiriam apenas para lhe servir.

E o pior é que grande parte da sociedade brasileira, mesmo a menos afortunada, votam nos representantes da elite, simplesmente por achar brega votar nos seus. Pobre povo que não consegue fazer a leitura correta do ponto de partida de sua exploração.

Ao recorrer a Paulo Freire para me dar suporte no encerramento desse pequeno desabafo, o que ele diz: “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O dia em que o terrível Godofredo assassinou a impressora

Godofredo sempre foi um cara descontraído metido a intelectual. Namorador que só. Frequentava as mais diversas rodas políticas na década de 80 e participou de momentos importantes da vida política do país.

Após várias tentativas sem sucesso, Godofredo descobriu que era um homem de negócios e meteu na cabeça que ia ser empresário. Começou lá embaixo e após alguns anos de trabalho conseguiu montar um império, pelo menos para quem veio de baixo. Aos poucos sua empresa cresceu, a base de mais valia, é claro e ele se se tornou um empresário de sucesso. Batia no peito e dizia que era fruto da sua inteligência, esforço e dedicação pessoal. Apesar de tratar seus funcionários à bordoada, dizia ser necessário, pois se não fizesse assim a empresa não vingaria e todos que o criticavam ficariam sem trabalho.

Não cofiava em ninguém. Nem mesmo na sua sombra. Uma das coisas que chamava a atenção de todos era o que ocorria de anormal quando Godofredo entrava em seu estabelecimento industrial. Lá fora ele era o Godofredo: o cara bonzinho, o político bem informado, o amigo e camarada de todos. Vivia rindo a toa. Porém, quando Godofredo passava pelo limite da porta que dividia o dentro e o fora da sua empresa, algo de muito estranho acontecia. Uma espécie de entidade do mal dele se apoderava. Mudava a voz, o jeito de andar e principalmente o olhar para os funcionários, impondo medo. A partir daquele momento não era mais o Godofredo amigo e sim o Sr. Godofredo o “Diretor Presidente”.

Para provar que ali o Godofredo era a lei, começava logo cedo a xingar os funcionários que via pela frente: “Vamos trabalhem, que moleza é essa? Quero produção, produção!. Tá muito fraco!” “Só faz coisa errada, que litígio é esse cara?”. “Ah isso aqui vai mudar, ah se vai! Quem não se enquadrar vai pra rua” “Quer ser mandado embora, quer”? Enfim fazia o percurso, da produção da sua empresa desclassificando todo mundo, simplesmente para provar quem manda no pedaço. Godofredo simplesmente se transformava num monstro.

Godofredo é mesmo uma daquelas figurinhas carimbadas. Certa vez começou a brigar com um de seus irmãos, tão louco quanto ele e começaram a xingar as mães, como se fossem mães diferentes. Gritavam: “Um falava: sua mãe é isso e o outro respondia: é a sua. Vem falar aqui vem? E o outro respondia: venha você para eu partir sua cara. Sua mãe deve ter se arrependido de ter te gerado seu infeliz. E a sua deve se envergonhar do traste que gerou.” E a coisa foi ficando cada vez mais tensa. Em dado a coisa foi para as vias de fato.

Godofredo para provar que era melhor e mais forte que o irmão, derrubou de cara uma prateleira tipo torre, cheia de ferramentas e essas se espalharam pelo chão da fábrica. Foi um corre-corre geral para apanhá-las. Parecia que as ferramentas tinham vida e queriam fugir daqueles insanos.

O irmão de Godofredo começou a correr atrás dele (que cena fantástica) dizendo: “Vou te pegar seu miserável. Não sobrará nada para contar a história”. Para se defender Godofredo que não é bobo nem nada, buscou proteção do lado de dentro do escritório. Escondeu-se atrás da porta. Ele xingando a mãe do irmão de um lado e o irmão por sua vez xingando a mãe dele de outro. Como cada um esmurrava a porta com mais força, como se fosse ao outro, a porta que era de ferro dobrou ao meio. Parecia de lata. E aí cara a cara, antes que um matasse o outro, chegou a turma do deixa disso e separou aquelas criaturas, que ficaram se  jurando. “Você não e homem, dizia um e o outro respondia: vem aqui pra eu provar”. A porta imprestável, foi para o ferro velho, pois não havia mais conserto.

Tudo isso já era o suficiente para internar aquele maluco que tratava sua empresa como um verdadeiro manicômio. Os funcionários perguntavam baixinho uns para os outros: “cadê o doido já chegou?” E nas rodas de conversa ele era o assunto do dia.

Porém, algo muito mais louco e hilário estava para acontecer. Alguém que não tinha vida própria estava para ser assassinada: uma pobre impressora Epson LX 300.

Naquele dia Godofredo amanheceu doidão. Espumava de raiva. Estava de mal com o mundo. Já tinha brigado com a empresa inteira. Em dado momento empurrou a porta do escritório bruscamente e entrou apressado procurando um relatório. Chegou perto de um garoto que tinha entrado há pouco tempo e estava se formando para pastor e falou: “Cadê o relatório cara?” O garoto pálido de medo gaguejava: “Sensenhor Gogogodofredo...aaa impressossora quebrou....” Godofredo vermelho como um pimentão, coçou a barba e com um sorriso irônico esbravejou: “CARA VOCÊ AINDA NÃO CHAMOU O TÉCNICO PARA CONSERTAR ESSA P.... DE IMRESSORA. QUE LITIGIO É ESSE?” e o garoto quase chorando dizia: “Ainda não Seu Godofredo, desculpe. Ainda não consegui falar com Seu Barbosa”. E Godofredo aos berros disse o seguinte: “ISSO É UMA VERGONHA. É UMA INCOMPETÊNCIA. AQUI TODO MUNDO É INCOMPETENTE. VOLTAREI DAQUI A DEZ MINUTOS E SE ALGUÉM NÃO TIVER RESOLVIDO ESSA SITUAÇÃO EU MESMO VOU RESOLVER. VOCÊ VAI VER”.

O garoto tremendo de medo ligava para seu Barbosa e nada dele atender. Estava em pânico. Dizia quase chorando: “E agora. E agora. Seu Godofredo vai me matar. Ai meu Deus me ajuda e começou a orar com a mão postada, ora para a impressora e ora para a porta com medo do Godofredo entrar”.

Os dez minutos se passaram e o garoto não conseguiu resolver o problema. De repente, quase pondo a porta abaixo aparece Godofredo, pisando duro e lá de longe gritou: “Conseguiu resolver cara?” e o garoto abanando a cabeça dizia não. Nem conseguia falar de tanto medo.

Godofredo calmamente veio em direção à impressora. Caminhava se balançando de um lado para o outro com seu barrigão, fazendo um barulho na boca como se estivesse limpando os dentes. Era uma impressora daquelas de imprimir formulários contínuos. Tirou-a calmamente da tomada, levou às costas segurando-a pelo cabo e antes que alguém falasse alguma coisa começou a bater a impressora no chão com uma força descomunal. Bateu: uma, duas, três, quatro, cinco, infinitas vezes.

Uma cena arrepiante. Dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, vendo aquela figura parecendo um galo de briga em cima da pobre impressora. Godofredo fazia isso e gritava: “TOMA, TOMA, SUA IMPRESSORA MALDITA. OLHA AQUI O QUE EU FAÇO COM VOCÊ. SE NÃO TEM TÉCNICO PRA TE CONSERTAR EU TE CONSERTO PRA SEMPRE. VAI PRO INFERNO SUA MALDITA. VOCÊS TODOS SÃO CULPADOS POR ESSA CENA. MAS VOU RESOLVER, PORQUE EU SEMPRE RESOLVO, AH SE RESOLVO!”. Nesse instante várias pessoas estarrecidas assistiam aquela cena. Godofredo com seu corpão avantajado agora dava pulinhos em cima do que tinha restado da pobre impressora e gritava: “NÃO SOBRARÁ CACO SOBRE CACO. Vou acabar com tudo”. “ESSA EMPRESA UM DIA VAI MUDAR, OU NÃO ME CHAMO GODOFREDO”.

Após uns dez minutos pulando em cima dos cacos, Godofredo descobriu que ainda tinha sobrado o rolo da impressora e uma espécie de esqueleto da mesma. O que fez Godofredo? Abriu a porta, passou pelo portão de entrada da empresa e foi até o poste mais próximo. Segurando o que restou pelo cabo começou a bater fortemente no poste gritando: “ACABOU, ACABOU, NÃO SOBROU NADA, CHAMA A MULHER DA LIMPEZA. NÃO ERA ISSO QUE VOCÊS QUERIAM? AGORA TÁ FEITO! TÁ FEITO! ACABOU!”.

Quando não havia mais quase nada para destruir, Godofredo limpando as mãos, uma na outra, entrou calmamente na empresa sem olhar para ninguém, subiu a escada, sentou-se na sua mesa de trabalho e começou a trabalhar normalmente como se nada tivesse acontecido. Como se tudo aquilo tivesse sido apenas uma terapia.

Tempos depois, Godofredo contava isso pra todo mundo como se fosse uma resposta aos funcionários incompetentes que tinha e que não conseguiam sequer chamar um técnico para consertar uma impressora. Por outro lado, seus funcionários e conhecidos, além de dar muitas risadas, que rendem altas gargalhadas até hoje, diziam que o problema não é você ser empregado. O problema de fato é ter um patrão como o Godofredo, que ninguém respeitava, apenas morria de medo na frente dele, mas rachavam de rir quando ele dava as costas. Um verdadeiro fanfarrão.

Para entender esse maluco só lendo Michel Focault. Em seus estudos Focault segure que o poder está à margem da loucura é por isso que todo maluco muda a voz, jeito de andar, de se vestir e, sobretudo de amigos.

O pior é saber que o deus mercado está cheio de gente como o Godofredo. Dá para se ter respeito por um tipo desses?


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A vibrante militância da juventude petista da RMC em busca de uma nova forma de governar


Ontem à noite na cidade de Campinas, aconteceu um daqueles momentos, capaz de revigorar nossas energias, nos fazer voltar a sonhar e não perder a esperança jamais de que de fato a sociedade se reinventa a cada instante e as lutas do passado, não resolvidas, se entrelaçam à conjuntura atual.

Só vai entender o que estou a falar, quem não se pauta pela mídia conservadora e parcial, quem não foi contaminado pela direita raivosa e quem toma decisões estratégicas na vida a partir de um referencial coletivo, que passa a integrar seu próprio projeto de vida. Ou seja, quem milita por uma causa político-econômica e social que supere as injustiças e inclua todas as pessoas banidas da sociedade.

Fui convidado para o encerramento da Caravana Horizonte Paulista, coordenada pelo Ex-Ministro Alexandre Padilha e virtual pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, ocorrida no Sarau que a juventude preparou para ele.

O diretório do Partido dos Trabalhadores de Campinas estava repleto. Num clima descontraído, vários jovens de diversas regiões, matrizes étnicas e lideranças de diversas causas e entidades, estavam presentes, além de muitas outras pessoas de todas as idades e puderam livremente se posicionar com suas reivindicações e, sobretudo com suas opiniões para o conteúdo de um Plano de Governo Participativo, em busca de uma nova forma de governar São Paulo.

Rostos alegres e descontraídos. Falas carregadas de emoções. Indignação pelo abandono do Estado de São Paulo, pela forte repressão e assassinato de jovens paulistas, principalmente os da periferia e negros. Tudo isso aliado ao compromisso de irem às ruas e fazer a disputa rumo a um novo projeto de governo do Estado.

Do outro lado um pré-candidato atento, conectado com os interesses da juventude e, sobretudo vibrando junto a cada depoimento. Foi assim, o tempo todo, o comportamento de Alexandre Padilha. Naquele momento, mal dava para separar quem era povo e quem era o personagem principal daquele encontro. Assim como não dava para separar jovens e pessoas mais idosas, misturadas numa forte energia prontas para a segunda etapa.

Por um instante eu passei a entender perfeitamente o porquê tinha escolhido em 1974, numa pequena cidade de Pernambuco, minha querida Belo Jardim, ter um lado, apoiando junto com um pequeno grupo de pessoas Marcos Freire para Senador e o MDB como ponto de partida na minha militância à esquerda, com opções claras e prontas para no futuro ajudar as Comunidades Eclesiais de Base ligadas à Teologia da Libertação, as longas caminhadas ao Estádio da Vila Euclides e ao Paço Municipal de São Bernardo do Campo nas greves de 79 e 80 e principalmente a opção sem hesitar de me filiar ao Partido dos Trabalhadores. Aliás, por duas vezes. Uma em 1980 que a ficha desapareceu e a outra em 1982.

Imagino que viver é isso. Numa semana estar com os gestores, militantes e pessoas da aldeia indígena numa pequena cidade na divisa de Mato Grosso com Rondônia, chamada Rondolândia, ajudando a capacitá-los e aprendendo com eles e na outra viver as emoções da alegria incontida daquela juventude e poder dizer: estamos juntos.

Para completar o cenário, como esquecer as palavras do Vereador Líder da Bancada do Partido dos Trabalhadores em Americana, Moacir Romeiro, proferidas no evento com o Ex-Ministro Padilha. Disse ele: “Companheiro Padilha, por certo você terá apoio do empresariado, de vários partidos e de várias partes da sociedade, mas de nada vale se você não vier a governar com o povo, respeitando os setores organizados e ouvindo suas reivindicações. Só assim seu governo poderá ser considerado um governo democrático e popular”.

Só consegue entender o que significa isso quem escolheu um lado para atuar e quem ainda se indigna com todo processo de exclusão provocado pelo poder econômico global.

Ser petista, não é ter cargo e muito menos posição em qualquer tipo de poder. Ser petista é antes de tudo sentir na alma o pulsar da sociedade se reinventando e se sentir também sujeito dessa história que está sendo escrita a várias mãos.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Caminhos FPA: um registro dos Cursos Rondolândia/MT

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Coordenar o Programa de Capacitação Continuada em Gestão Pública e ter a possibilidade de levar dois cursos a uma cidade tão pequena como é Rondolândia, pode parecer pouca coisa para quem não esteve lá, porém ela é cheia de tantas histórias e práticas diferenciadas, que mais parece uma cidade grande, com pelo menos uma grande diferença: O ato de governar se inicia no gabinete da Prefeita Bett Sabah e se expande até às Aldeias.

Quando temos uma missão de vida, não importa os caminhos. Se longe ou perto.
Todos que vamos encontrando na estrada passam a ser convidados para o grande banquete. Um banquete de conhecimento, de troca de saberes, de carinho e pura sabedoria. Que nos diga os Índios Suruís.

Que a vida nos conceda mais momentos sublimes como esse, onde a mistura de etnias, e de culturas se entrelaçam numa grande caminhada em busca da liberdade.


Obrigado a Fundação Perseu Abramo, obrigado Marcio Pochmann, obrigado a Prefeita Bett pela possibilidade, obrigado aos povos de Rondolândia e um obrigado especial ao Setor de Comunicação da FPA pela magia que foi transformar todos aqueles momentos num registro histórico.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo

toni.cordeiro1608@gmail.com

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Os desafios do trabalho em equipe

Figura: www.portalcocal.com.br

O que é trabalhar em equipe? O que as pessoas precisam aprender para exercer o trabalho em grupo? Porque a maioria das pessoas sente tanta dificuldade em se adaptar?

Nos dias de hoje parece uma coisa natural o termo trabalho em equipe. É como se a sociedade moderna tivesse simplesmente se reinventado, como se isso fosse amplamente possível, sem os meios adequados.

Até os capitalistas de plantão descobriram que podem produzir e ganhar mais ao adotar o trabalho em equipe, o que seria uma verdadeira evolução, a partir da Teoria Z de William Ouchi, se no meio disso tudo não existisse a exploração. Onde estão as contradições? Na essência da discussão, na possibilidade subversiva de juntar pessoas, onde de um lado, passa a ser plenamente aceitável para a produção e até mesmo para a qualidade, porém terminantemente proibido e reprimido quando o caso se refere à cobrança de direitos.

No mundo empresarial moderno chegou-se a conclusão, que quanto mais se investe no ser humano, mais ele produz e com prazer, embora não participe da divisão dos lucros, mas a sensação de bem estar acaba produzindo uma forma de recompensa. Essa evolução está presente, se iniciando pela Teoria Y e se configurando na Teoria Z.

Acredito que é nesse gueto que se encontra, por exemplo, parte do sindicalismo no Brasil, que vai desde a renúncia do trabalhador atual em não acreditar ser possível ter sindicatos que defendem seus direitos, sem ter nada em troca, até alguns sindicalistas que se perderam no tempo, seja pela desatualização ou mesmo por ter se vendido à promiscuidade. É claro que não estou generalizando, pois existem sindicatos e sindicalistas procurando se adaptarem às mudanças do mundo do trabalho, porém a maioria se encontra nessa eterna contradição.

Vale ressaltar mais uma contradição, que é o deslocamento existente, por exemplo, nos últimos 20 milhões de trabalhadores com carteira assinada, com um grande contingente de prestadores de serviços, que sem serem sindicalizados, pelo menos por opção, cria uma espécie de bolha de poder ou sua negação, requerendo um estudo específico de como tratar política e economicamente essa situação.  Esse fato, além de resultar uma nova classe trabalhadora, resulta também no desprestígio às instituições sindicais que não estão acompanhando as mudanças do Século XXI .

Quando trazemos a discussão da importância do trabalho em equipe para a Gestão Pública, as contradições são ainda maiores. Primeiro pelo fato dos funcionários, servidores e colaboradores, virem de um mundo onde jamais foram chamados sequer para discutir as tarefas, quanto mais o que e como fazer essas tarefas de forma coletiva.

Tratando-se, portanto, de um mundo ou de uma relação estática, onde o ser humano vira apenas maquina e desenvolve precariamente sua função ou ainda da tarefa mal trabalhada, onde de um lado o servidor desmotivado finge que ganha e que trabalha e de outro um grande contingente de gestores satisfeitos com essa situação, pelo fato da possibilidade de terceirizar da máquina pública, rifando assim a sorte principalmente da população carente.
Trabalhar em equipe requer antes de tudo uma mudança de postura, mudança de valores e consequentemente de atitudes. Talvez tudo fique mais fácil quando se tem ou um problema ou um propósito coletivos, pois a necessidade impõe a ação, só que para isso requer outra configuração.

Só para lembrar, nenhum gestor que esteja na promiscuidade ou ainda que não respeite a organização popular, por exemplo, se atreve em desenvolver um trabalho em equipe, pois quando as pessoas se juntam com um propósito, nasce a partir daí algo tão grandioso, que além de impor respeito, para aqueles que o rejeitam, os demais na plateia também sentirão vontade de incorporá-lo. É a aí que nasce a subversão da ordem vertical em favor da ordem horizontalizada, onde todos serão ouvidos e respeitados.

Uma ação coletiva pode representar até mesmo a busca da liberdade para alguns, o encontro de elos perdidos pela contradição da vida para outros, mas, sobretudo representará antes de tudo, a busca da superação construída em comunhão, na medida em que “eu” sozinho não dou conta da tarefa e preciso do “nós” para completar a ação.

Como dizia Paulo Freire: "A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação exige permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão."

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O que você entende por Empreendedorismo Social?


Empreendedorismo Social representa na atualidade um termo com alguns significados, onde cada um deles se situa num contexto ideológico.  

O livro do Carlos Montaño: “Terceiro Setor e Questão Social”, resultado de sua tese de doutorado, mostra claramente a procedência do termo terceiro setor, ao qual o autor afirma ser de denominação ideológica, cunhado lá nos EUA e importado para o Brasil e outros países da América Latina e Caribe, a partir do desmonte do Estado no processo de privatização.

Segundo seu estudo, o termo nasce na efervescência da implantação do neoliberalismo na América Latina e no Caribe, onde a partir da falência do Estado-Providência, como grande pressuposto da redução do Estado e reafirmando a tese do Estado Mínimo, necessita das ONGs – Organizações não Governamentais para assumir as funções sociais do Estado.

Carlos Montaño cita ainda a fragilidade e contradição das ONGs, não aquelas surgidas a partir dos movimentos sociais, mas as criadas para assumir essa nova tarefa, pois apesar de se caracterizarem como entidades não governamentais, é justamente o Estado “falido” que mantém essas instituições com dinheiro público.

A partir do surgimento de milhares dessas ONGs no Brasil, também surge um novo mercado para esses novos profissionais da miséria. De um lado pessoas bem preparadas para captar recursos, seja público ou privado e em nome da benevolência, suprir as deficiências sociais do Estado e de outro lado os voluntários se dedicando a ajudar pessoas. Uma combinação perfeita se tudo isso não estivesse a serviço do desmonte do Estado enquanto provedor de seus problemas e não estive dando suporte ao neoliberalismo, como afirmou Paulo Nogueira Batista em seu livro “O Consenso de Washington”.

É dentro desse contexto que o termo Empreendedorismo Social se encontra. Para os adeptos do chamado terceiro setor, o empreendedor social é aquele profissional que se especializou e descobriu uma nova forma de ganhar dinheiro a partir dessas ONGs, onde de um lado capta recursos para aplicar no universo da pobreza e por outro até presta serviços na formação de cooperativas e associações compostas pela população em vulnerabilidade social. Já para os militantes políticos, o Empreendedorismo Social representa o investimento na população pobre no sentido de libertá-las das amarras da exclusão social e econômica. Nesse contexto está contida a capacitação e a formação tecnopolítca, capazes de formar cooperativas, associações ou mesmo grupos associativos com autonomia de seus participantes e dentro da lógica dos negócios solidários, onde o mais importante é a organização coletiva.

O grande debate que se estabelece nessa discussão é a de que o neoliberalismo ao encurtar o tamanho do Estado, com sua tese do Estado Mínimo, transfere ao mercado a mediação dos interesses da população, principalmente a mais necessitada e é aí que entra o chamado terceiro setor, como uma privatização das funções sociais do Estado. Assim, fica a demonstração clara de que quanto mais um Estado forte num país capitalista, menos poder de mercado e quanto mais fraco esse Estado for, mais necessidade da criação de novos organismos que supra essa necessidade.

Como afirma Montaño, a justificativa para tudo isso vem da satanização de tudo que é estatal e, portanto tem que ser privatizado para o “deus” mercado. “Por outro lado, sataniza-se o Estado-providência como “burocrático”, “paternalista” e em “crise de governança”; como se os gastos com o processo burocrático (dos quais o capital sempre se beneficiou e comandou) fosse só negativo (pense-se na garantia dos processos de licitação, concursos públicos etc.), como se fosse “paternalista” a assistência ao necessitado e a garantia de direitos sociais, mas sem considerar o constante socorro e financiamento ao capital como paternalista”.

É impensável para quem defende uma sociedade livre e soberana, se submeter à industrialização da miséria. Esse debate estará todos os dias nas próximas eleições, onde os defensores do neoliberalismo dirão que o Governo Federal gasta muito com o social, por exemplo, deixando o mercado desprovido e os representantes da população pobre dirão que foram esses investimentos nas causas sociais que salvaram o Brasil dessa crise mundial.
Foi com o propósito de trazer o Empreendedorismo Social como elemento de organização solidaria e de uma prática coletiva, que criamos pela Fundação Perseu Abramo o Curso Empreendedorismo Social e Economia Solidária e sentimos seus efeitos na prática ao aplicar o curso para gestores e para integrantes de uma Aldeia indígena na cidade de Rondolândia/MT.

A resposta foi imediata, principalmente por parte dos membros da aldeia, que nos mostraram um alto grau de organização, ajuda mútua e solidariedade, uns com os outros. Uma clara demonstração de que não necessitaria de uma ONG mantida com recursos públicos para assessorá-los e sim da prefeitura participando junto e abrindo espaços para seu desenvolvimento.

Sou adepto da ideia que grande parte da população é empreendedora, faltando apenas oportunidade, investimentos públicos e criação de novos espaços.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma lição de sabedoria


Quando tomamos a decisão de iniciar a segunda fase do Programa de Capacitação Continuada em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo, que fazemos com os gestores nas cidades que o PT governa, é vice ou faz parte da gestão pela cidade de Rondolândia/MT, tinha na verdade alguns significados, porém eu nem imaginava que o significado mais interessante ainda estava por vir.

Escolhemos essa cidade, primeiro porque em Mato Grosso tinha sido realizado o primeiro Curso de Gestão Pública com prefeituras (Plano de Governo e Ações para Governar) e lá me chamou a atenção a disposição da Prefeita Bett Sabah, que trouxe sua equipe para o curso, com uma distância de mais de 1100 km e participou ativamente. 

É importante ressaltar que estamos falando de um município com 3726 habitantes, com a economia predominante rural, com algumas aldeias indígenas e com um histórico de violência política e pela disputa de terras, que atingiu o Padre Ezequiel a 25 anos, o sertanista, indigenista e ex-presidente da FUNAI Apoena Meireles em 2004 e recentemente na antevéspera da última eleição para prefeito, o presidente do PT local foi achado morto. Em segundo por ser uma mulher que ganhou as eleições violentas com dois partidos sem dinheiro contra 11 com todos os recursos disponíveis e também por ser um município pequeno no limite de dois Estados: Mato Grosso e Rondônia.

Foi lá também que resolvemos lançar o segundo Curso de Gestão Pública da Fundação: Empreendedorismo Social e Economia Solidária, com o principal propósito de trabalhar o social como resgate da cidadania e um processo de inclusão, se diferenciando do tal terceiro setor, que mostra o social como uma benevolência e também trabalhar o empreendedorismo sob a ótica do coletivo e não como um talento individual. Para isso a equipe de comunicação da Fundação Perseu Abramo, representada pela jornalista Fernanda Estima e pelo bravo companheiro Serginho, fotógrafo, cinegrafista e que traz como trauma a violência da polícia do Governador Alckmin nas manifestações de junho último, quando perdeu uma das vistas com as balas de borracha, me acompanhou com o objetivo de elaborar um documentário sobre o trabalho. Apenas para registro, vale lembrar que esse triste fato ocorrido com o Serginho, que está nas mãos da justiça, não interrompeu sua carreira e sim lhe deu mais motivação para a vida e para o trabalho.

O cenário descrito até aqui já propõe que a ida para Rondolândia não foi atoa. Tinha algo de especial, do começo ao fim.

Resolvemos dividir o tempo de três dias em duas etapas. A primeira com o Curso Plano de Governo e Ações para Governar, onde mesmo aqueles gestores que fizeram o primeiro em Cuiabá, participaram novamente e sentiram que o curso vai se refazendo, se atualizando com a conjuntura e com as questões políticas e culturais por onde passa e a segunda etapa do trabalho foi dedicada ao lançamento do Curso de Empreendedorismo Social e Economia Solidária.

Todas as pessoas que já fizeram teatro como eu sabem que o lançamento de uma peça dá um frio na barriga ao iniciar, um caminho desconhecido por não sabermos a reação da plateia e também uma enorme satisfação se a peça atingiu plenamente seus objetivos.

Como uma boa parte da plateia era composta por indígenas da Aldeia Apoena Meireles da etnia Suruí, inclusive com a presença de uma das lideranças Naray e em alguns momentos pelo Cacique Itabira Narai, fiquei procurando linguagens e metáforas, além de vídeos, que facilitasse a compreensão, pois mesmo eles falando português, necessitavam de cuidados quanto ao entendimento de alguns conceitos novos. Essa estratégia me levou a fazer uma pequena mudança de conteúdo no curso, introduzindo algo a partir do diálogo com os participantes. O curso transcorreu de forma leve e participativa e com muito interesse dos participantes. Percebia que pouco a pouco a plateia ia se envolvendo, não só no conteúdo, mas principalmente no clima organizacional.

A surpresa veio no encerramento do curso, pois enquanto o povo branco tinha uma enorme dificuldade de revelar e ajustar seus valores, o povo da aldeia estava totalmente preparado, no que se refere a organização, ajuda mútua, solidariedade e compromisso com o trabalho. Esses elementos se materializaram, não só no depoimento das participantes indígenas, ou ainda nas avaliações por escrito, mas sobretudo nas tarefas de trabalho em grupo, onde formatamos a Estrutura de um Plano de Negócios Solidários. Estava claro que o que eles necessitavam era apenas de conhecimentos técnicos e não de resgate de valores e princípios, pois já dispunham, inclusive para socializar.

Que venham mais desafios como esse, capaz de quebrar estruturas, derrubar muros e consolidar ainda mais o modo petista de governar.

Que venha mais governos como o da Prefeita Bett Sabah, que governa com a população carente e não apenas do gabinete, que governa nas conexões Mato Grosso - Brasília e principalmente governa com o Partido dos Trabalhadores. 

Quero terminar esse post afirmando sem medo de errar, que foi um dos momentos em que mais aprendi, em todas as áreas, muito mais do que ensinei. 

A experiência do povo Suruí ficará na minha história, na história da Fundação Perseu Abramo e na historia do Partido dos Trabalhadores, pois a comunidade, não só apoia a Prefeita Beth Sabah, em todas as suas ações, como agora estão se filiando ao partido, numa clara demonstração de que a luta continua e juntos.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública e Social da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com