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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Tomara, só que não!

Assim seja, espero que, oxalá, ou simplesmente tomara. E tomara que não estejamos abusando muito desta palavra. O tomara não pode substituir nossas responsabilidades e nossas atitudes. Sim, há uma diferença entre aquilo que é passível de ser realizado por nós e aquilo que gostaríamos que acontecesse, mas que independe de nossas atitudes. Delimitar claramente cada caso pode não fácil em algumas situações, mas é preciso. Tomara que pelo menos até aqui este texto esteja sendo claro o suficiente.

A fé naquilo que se faz é sempre bem-vinda, pois é justo o sucesso daquele que ‘arregaça as mangas’ e ‘bota as mãos na massa’. Há muito tempo já se disse que ‘a fé sem obras é morta’, de modo que apenas torcer para que nossas vontades tornem-se realidade enquanto se espera de braços cruzados será em vão. O poeta já nos sugeriu: ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’.

Muito esperamos e pouco fazemos. Queremos ser um país de primeiro mundo, queremos desenvolvimento, queremos educação, mas se pararmos bem pra pensar estamos só no tomara que tudo melhore e não fazendo nada de concreto para uma mudança de fato. Se cada um de nós não mudarmos, melhorarmos, nada muda, nada melhora.

Só pra não restar dúvidas: nem tudo depende de nós, diversos fatores nos influenciam e as circunstâncias e oportunidades não são homogêneas, de modo que o que é possível pra um pode não ser para o outro. Assumindo isso, vamos nos concentrar na idéia daquilo que é realizável, daquilo que é possível de ser feito e que poderia ajudar à nós mesmos a nos livrar de tantos ‘tomara’.

Podemos aplicar essa idéia para o convívio familiar, para os relacionamentos, trabalho, estudos, enfim, para a vida. Pequenas e grandes conquistas não caem do céu, é preciso estar no lugar certo e na hora certa, é preciso se preparar e estar sempre pronto.

Já que mergulhamos nessa discussão pretensiosamente filosófica, não há que se poupar outra idéia bastante profunda: o caminho se faz caminhando, e as alegrias do caminho rumo ao que se deseja, que se sonha, podem ser até maiores do que as alegrias da chegada, ou seja, talvez seja mais prazerosa o trajeto de subida da montanha do que simplesmente estar no cume.

Então não fiquemos parados, caminhemos! Não nos permitamos afundar na areia movediça da rotina e dos padrões fabricados e à nós impostos de maneira sutil. Tomara que haja mais questões do que certezas, e que sempre possamos nos permitir a autocrítica.

A comunicabilidade talvez seja a grande virtude e o grande mal dos nossos tempos. As possibilidades que a vida virtual nos abre podem nos estar fechando para o que é, de fato, importante. Podemos interagir com colegas distantes, conhecer pessoas novas, e isso é bacana, mas não podemos deixar passar a oportunidade de abraçar o amigo de perto. É legal e lícito acessar atalhos e utilizar modelos prontos, mas isso não pode ser empecilho pra que nós mesmos saibamos fazê-los. Não podemos confundir informação com conhecimento.

Se pensarmos no nosso bairro, nossa cidade, nosso Estado, no País, todos listaremos uma grande quantidade de problemas e de mudanças que gostaríamos que acontecessem, correto? A lista de problemas é extensa e todos nós; uns mais e outros menos; sabemos o que precisa ser mudado, mas o que não podemos é acreditar que tudo está perdido, que não há solução e então não nos comprometermos com mais nada. Não podemos ser egoístas à esse ponto, cruzar os braços e simplesmente deixar rolar. Talvez o nosso maior desafio seja mudar a idéia convencional de que ao votarmos escolhemos alguém para nos representar e só poderemos nos manifestar novamente quatro anos depois. Não, o que precisamos é construir instâncias para a maior participação, de modo que não decidam por mim, mas comigo.

Que nós nos comprometamos com o ideal transformador à partir de ações práticas. Está certo que o Governo Municipal, Estadual ou Federal pode não ser aquele que mais nos agrada e também não é mentira que podemos fazer muito pouco individualmente diante da força do grande capital. Mas tal fato não pode ser motivo para nos fazer encurvar ao senso comum, às falsas informações das redes sociais e às mídias convencionais tendenciosas.

Nelson Rodrigues foi categórico ao afirmar que "quem pensa com a maioria não precisa pensar". Portanto, não compre idéias prontas, vamos vestir a camisa do otimismo e do compromisso com nossos ideais, vamos deixar os ‘tomara’ de lado e começar a mudança que tanto queremos ver. Será que um dia nos livraremos de tantos ‘tomara’? Sinceramente: tomara!
           
Roberto Rodrigues
Economista, Especialista em Economia Social e do Trabalho, Mestrando em Desenvolvimento Econômico junto ao Instituto de Economia da UNICAMP, Professor do ISCA Faculdades e Economista Associado à LMX Investimentos.
rodriguesrobertto@yahoo.com.br


segunda-feira, 14 de julho de 2014

O que aprendemos com a Copa do Mundo do Brasil?


Quero iniciar essa breve reflexão, fazendo uma pequena análise sobre as manifestações de junho de 2013, que tem tudo a ver com o resultado da Copa, com o fracasso da seleção e com o desejo incondicional do PIG.

Apesar de aquelas manifestações terem nascido de uma reivindicação justa do Movimento Passe Livre, tomaram outro rumo a partir da violência policial em São Paulo e deram contorno por algum tempo, com a manipulação explicita dos meios de comunicação.

Em regras gerais, na essência do movimento estava a revolta da população, em especial dos jovens, contra a onda de corrupção que assola o país e o desprezo contra a política e os políticos, potencializado pela mídia que generaliza a situação, na medida em que vende a falsa ideia de que todos os políticos são ladrões ou ainda que a política seja uma coisa do mal.

Vários estudiosos escreveram sobre o assunto, principalmente sobre quem era os personagens das ruas, o que de fato buscavam e quem os tentou manipulá-los.

O que ficou evidente foi que o PIG – Partido da Imprensa Golpista (Termo usado para definir os 75% dos meios de comunicação: Rádios, TVs, Jornais e Revistas, pertencentes a seis famílias abastada, que fazem opção clara por partidos direitosos e seus candidatos e se colocam no período eleitoral contra qualquer candidato que represente algum partido mais à esquerda, principalmente o Partido dos Trabalhadores, ou ainda contra qualquer ação ou Política Pública que represente benefícios ou inclusão das pessoas menos favorecidas), enxergou nas manifestações uma grande possibilidade de passar a imagem de que o Brasil de Dilma e do PT estava um caos e as manifestações eram contra Dilma e, portanto pedindo mudanças radicais nas próximas eleições.

As próprias manifestações desmoralizaram essa imprensa, ao deixar claro que a luta era contra a corrução, que infelizmente atinge todos os partidos, principalmente pelo alto custo das campanhas eleitorais e alguns gestores que transformam sua gestão numa grande oportunidade de se dar bem financeiramente e não contra o Governo Federal.

A saga do PIG visando às próximas eleições vai longe. Nos últimos três meses ele se concentrou seus esforços, contra a Copa do Mundo, vendendo a ideia de que o país não estava preparado, de que havia gasto muito dinheiro e que esse poderia ter ido para a educação e para a saúde (como se os seus governantes ou gestores, tivessem feito a lição de casa em tempos anteriores ou na atualidade em inúmeros municípios ou estados), de que a infraestrutura não ia dar conta, de que era trágica a situação dos aeroportos, de que os estádios não iam ficar prontos e tantas outras coisas que confundiam a cabeça do povo e alimentava o ódio dos “coxinhas”. O PIG enxergou que se a Copa fosse um fracasso, seria uma ótima oportunidade para afirmar que o Governo Federal teria fracassado.

Todos os dias esses assuntos eram pautas dos principais jornais televisivos ou radiofônicos e programas diversos, jornais impressos, sites dos mais diversos e semanalmente em suas revistas, principalmente na inVeja ou na Isto É, passando a visão de que o Brasil não estava preparado para um evento como esse. Cansei de ouvir em minhas viagens para os cursos da Fundação Perseu Abramo, os chamados “Coxinhas” vociferarem: “Imagina esse aeroporto na Copa. Não vai aguentar, vais ser um caos. É um absurdo!”. O ápice dessa calhordisse ocorreu na abertura da Copa, quando a nossa Presidenta foi xingada de  forma vil.

Foi necessário que a imprensa mundial afirmasse que a Copa do Mundo do Brasil foi um sucesso para que o PIG embarcasse nessa onda, pelo simples fato de não ficar sozinha e passar a reconhecer que o Brasil recebeu bem seus convidados, que não aconteceu o caos que pregara, que não aconteceram as manifestações que queriam, etc. Uma verdadeira desmoralização para uma imprensa que está longe de ser livre dela mesma e que morre de medo de ser controlada por um Conselho Nacional de Comunicação.

Agora a bola da vez é a Seleção Brasileira. As duas derrotas renderão comentários negativos por muito tempo, pelo menos nos próximos noventa dias, que não por acaso chegará até as eleições.

Entrando num campo que não e de meu total conhecimento, porém como torcedor, arrisco-me a enumerar alguns palpites sobre o que está sendo chamado de fracasso:

1.  O mercado futebolístico brasileiro necessita de uma grande reforma, que vai desde a transformação dos clubes brasileiros em empresas, onde todos os jogadores, independentes de suas famas, tenham seus direitos como trabalhadores, passando pela valorização e chegando à formação de base que teria que ser obrigatória em todos os clubes.

2. Se de fato a CBF – Confederação Brasileira de Futebol representa o país em suas modalidades, se faz necessário uma composição de forças com o Governo Federal, talvez para evitar que apenas o mercado seja o protagonista, inclusive impondo condições aos próprios jogadores, através de seus patrocinadores.

3. É impossível a Seleção Brasileira de Futebol ter um pleno sucesso, sem base, sem regras e sem um projeto consistente, como vimos em outras seleções, que acumularam vários anos de trabalho com o mesmo técnico e com um grande trabalho de base. Além disso, se torna impossível manter uma base no Brasil, onde um mercado predatório destina as melhores condições para o exterior e nossos melhores jogadores vão e absorvem vários ensinamentos, que na prática vira uma grande “salada”, a ser digerida em tão pouco tempo de preparação.

Vimos na seleção campeã, que a maioria dos jogadores está em clubes na Alemanha e o técnico vem de várias temporadas.

A grande lição que a Copa nos deixou foi em primeiro lugar, que a Copa do Mundo no Brasil foi um sucesso, em várias áreas, em segundo que a mídia golpista foi desmoralizada e que nenhuma das pragas que jogaram contra o Governo Federal vingou e em terceiro, que o futebol brasileiro necessita de uma grande reforma, de moralização, de trabalho de base e principalmente de criação de um projeto que analise o passado, aprenda com o presente e se prepare para o futuro. 

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O que a derrota do Brasil na Copa do Mundo tem a ver com a falta de água no Sistema Cantareira?


Aos nossos olhos, um assunto como esse nada tem a ver uma coisa com a outra, porém para a velha mídia, para os membros do Partido da Imprensa Golpista (PIG), para aquela mídia que pertence a seis famílias abastadas, caso o Governador de São Paulo fosse do Partido dos Trabalhadores, teria sim, tudo a ver. 

Simplesmente iriam dizer na CBN, na TV Globo e Bandeirantes, em seus jornalecos direitosos e em suas revistas apócrifas, que o PT teria boicotado a chuva, através de um pacto com São Pedro e não tinha construído ao longo de vinte anos, nenhuma alternativa que assegurasse água para a população. Portanto seriam os únicos responsáveis. Como quem está no poder paulista há vinte anos é o PSDB, seus eternos candidatos, nada dizem ou se dizem, minimizam o máximo que puderem.

O cenário é o seguinte: Chega a ser profundamente lamentável observar como uma parcela da população brasileira é reacionária, direitosa, racista, homofóbica, machista e, sobretudo, a mentora intelectual do separatismo entre ricos e pobres.

Fica na verdade putíssima (desculpem o termo chulo), com as cotas raciais e de renda; com o trabalho com carteira assinada; com o valor do Salário Mínimo; com as casas do Minha Casa Minha Vida para os de baixa renda, que nesse caso, além da insatisfação em ver os pobres tendo suas casas próprias, várias empreiteiras ainda buscam pessoas pobres e impõem trabalho escravo; com o controle da economia; com tantas Escolas Técnicas e Universidades sendo construídas, com os Médicos do Programa Mais Médicos; com o fato do Brasil não depender dos EUA e do FMI e tantas outras coisas afirmativas e inclusivas, porém, o que eles ficam mais possessos é com o fato do PT estar no comando da Nação por três governos.

Dizem eles: Como um Partido com origem na classe trabalhadora, onde seu primeiro e segundo Presidentes foi um trabalhador semianalfabeto e uma mulher como a primeira Presidenta do País, governa, está bem avaliado, apesar dos urubus e com chance de ficar mais 12 anos no controle? Sim, porque depois de Dilma vem Lula de novo. Isso faz com que os reacionários, a elite racista e os raivosos de plantão, percam o sono e principalmente até o rumo de casa.

No fundo a birra deles é que o Brasil de hoje não se curva ao deus mercado e sim cria regras de convivência, privilegiando os trabalhadores.

Para quem precisa que se desenhem as coisas, vamos a alguns conceitos:

Reacionário: Que ou aquele que defende princípios ultraconservadores, contrários à evolução política, ou social. (Dicionário Aurélio)

Direitoso: Termo que se origina na concepção da Revolução Francesa, que nas assembleias, durante o debate sobre a Constituição, os deputados ligados à aristocracia e aos defensores da monarquia constitucional, bem como os membros da alta burguesia, sentavam-se à direita do plenário. Esse grupo ficou conhecido na França como os girondinos, em decorrência de serem provenientes principalmente da província de Gironda. Os girondinos, ou a Direita, defendiam que o processo revolucionário fosse interrompido, garantindo apenas as conquistas alcançadas até o momento, como a elaboração de uma Constituição e o voto censitário, destinado apenas aos ricos. O objetivo principal era consolidar as conquistas burguesas e evitar a radicalização da revolução.

Paulo Henrique Amorim, em seu site Conversa Afiada, escreveu um belíssimo texto denominado: Perfil de um reacionário. Você conhece algum? (http://www.conversaafiada.com.br/pig/2012/03/23/perfil-de-um-reacionario-voce-conhece-algum/).

O texto começa com a seguinte citação: O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro tudo o que consegue juntar, mas só têm utilidade para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.

Voltando ao futebol, acredito que o time do Brasil perdeu para ele mesmo, tanto pela teoria burocrata de seu técnico, pela falta de um goleador aguerrido e também pela pressão psicológica da mídia conservadora, que antes da seleção queria mesmo era que a Copa fosse um fracasso para jogar nas costas da Presidenta Dilma e com isso tentar virar o jogo das eleições.

Sobre a falta d´água do Sistema Cantareira, fica evidente que o PSDB, nas figuras de Covas, Serra e principalmente Alckmin, se preocupou apenas em propagandas para vender o “nada” e se esqueceram do óbvio que era criar uma alternativa para evitar esse vexame em cima da hora. Não quero nem falar nos 12 bilhões de reais de propinas, já estimados no escândalo do propinoduto do metrô e dos trens paulistas, que só foi descoberto devido à denúncia da Siemens. 

Na verdade, a maioria da sociedade brasileira vive um grande conflito. Por um lado acha injusto o voto obrigatório, que também acho, votando em pretensos representantes, sem ao menos conhecê-los, por falta de participação e por outro fica refém da mídia das seis famílias, que representa o quarto poder, vendendo a imagem de que todo político é ladrão e política é uma coisa ruim, com o claro intuito de afastar a população do mundo da política, voltando para aquela alusão antiga de que política, religião nem futebol se discutem.

Enquanto o povo não descobrir que começo, meio e fim das questões políticas está em suas mãos, onde a participação ativa nas decisões políticas, que é um direito, poderia limpar do mundo do poder, tanto aqueles que usam o povo para se auto beneficiarem, como principalmente aqueles que tratam a população como “garrafinhas” a serem negociadas no processo eleitoral.

Garrafinhas do Brasil uni-vos. Quem nos trata como “garrafinhas” não nos representam.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com






segunda-feira, 7 de julho de 2014

Quem nunca ouviu de um gestor: “Aqui não adianta, o povo não quer participar”?


É comum ouvirmos de vários gestores, em várias partes do país, as seguintes frases: “Você não conhece essa cidade. Nessa cidade ninguém se interessa por participação”. “Aqui, pode chamar. Não vem ninguém”.

Lembro-me das palavras de algumas pessoas quando estávamos iniciando os trabalhos em 2009, para criação do Grupo Gestor de Integração e Planejamento, na cidade de Artur Nogueira, no governo do Prefeito Marcelo Capelini. “Essa cidade tem 60 anos e sempre foi assim. Ninguém participa. Não há o menor interesse por parte da população em nada que for do governo”. Eram palavras desanimadoras.

Fingindo que não ouvia, pois não era relevante perto da nossa tarefa, simplesmente fomos fazendo. A primeira surpresa ocorreu quando a Secretaria de Planejamento Estratégico e Desenvolvimento Sustentável, que eu secretariava, chamou o I Encontro de Economia Solidária no dia 20 de agosto de 2009, das 8 às 13 horas, uma quinta feira chuvosa e vieram mais de 250 pessoas. A segunda, ainda mais improvável, que era um Encontro com os empresários, que nunca tinham participado de nada em termos de governo. O I Encontro de Negócios teve a participação de 128 empresários, numa quarta feira à noite.

Quebrando todos os mitos de forma definitiva, o Grupo Gestor de Integração e Planejamento promoveu em 40 meses de trabalho, nada mais, nada menos, do que 51 eventos de forma direta e participou de mais 20 organizados por outros setores do governo, sendo a extrema maioria deles pela primeira vez. Algo impensável para os participantes da primeira reunião no dia 20 de março de 2009.

O evento menos expressivo ocorreu com os próprios empresários, no dia 25 de novembro, à noite, com a participação de apenas 25 deles. Como não havia uma agenda única de eventos socializada com todos os setores do governo, pois o Departamento de Cultura controlava de forma exclusiva, sem lembrar, estávamos concorrendo com a Missa da Padroeira da cidade e a maioria dos empresários foi à missa e mandaram justificar.


No curso de Gestão Pública que tenho ministrado pela Fundação Perseu Abramo, tenho feito uma ampla reflexão sobre o assunto e às vezes chegamos à conclusão de que isso ocorra, pelo simples fato de que algumas pessoas quando estão no exercício de governar, esquecem que vieram do povo. Simplesmente eles não se consideram como seres normais da sociedade e sim pessoas iluminadas, que recebeu a "luz" para conduzir os anseios, sonhos e destino da população. Normalmente quando saem do poder entram em crise, por não entenderem que a “luz”, que foi emprestada pelo povo, simplesmente apagou.

Outra reflexão possível vem do fato desses gestores acharem que se não tem nada de novo para dizer, ou ainda, que se não há recursos suficientes para investimentos, o melhor é calar. Acho que esse seria um dos grandes motivos para o encontro com a população e junto com ela, discutir o Orçamento, seja pelo PPA (Plano Plurianual) ou ainda pelo OP (Orçamento Participativo). Expor a situação, contar como está a máquina pública ou ainda de forma transparente pactuar com a população as possibilidades ou a falta delas.

Os representantes eleitos que vieram das lutas sociais e que não traíram e não traem suas convicções, em regras gerais, têm menos problemas de entendimento do direito à Participação e de Controle Social, pois também reivindicavam quando estavam do outro lado, porém os que fizeram da política uma carreira profissional ou ainda que vieram de camadas econômicas privilegiadas, jamais entenderão de que todas as Políticas Públicas tem origem na sociedade e terão que voltar em termos de benefícios, para e com os atores envolvidos, desde a formatação, até o monitoramento visando os resultados finais. Isso é democracia.

Um dos grandes males da democracia representativa, que está em crise, é que em regras gerais, pela falta de participação, os ditos representantes da população, na verdade não representam ninguém. Só eles mesmos.

Outro grande mal pela falta de participação vem do fato de que uma grande parte da população se coloca à venda no período eleitoral. Normalmente esse contingente de pessoas pensa assim: “Se sou obrigado a votar, voto naquele ou naquela que me oferecer a melhor vantagem”. Isso teria que ser banido do processo eleitoral e democrático e dito em alto e bom som: É UMA DAS FORMAS DE CORRUPÇÃO POLÍTICAS E SOCIAL.

Caso você, caro leitor ou leitora, seja gestor ou gestora, aí vão dois caminhos possíveis: o primeiro, fortalecendo o senso comum de que política e religião não se discutem e aí essa mentira se justificar pela falta de participação em seu governo e o segundo, saindo do gabinete e governando junto com a população e para isso se faz necessário educar a população para a participação.

Nesse processo não podem ser esquecidos: primeiro de que nem sua equipe poderá estar preparada para governar junto com a população e nem a população aprendeu como participar de qualquer ação de governo e segundo que ao não convidar a população para governar junto, seja através dos Fóruns ou ainda pelas instâncias representativas, corre-se o risco de fortalecer a ideia disseminada pelo PIG de que todos os políticos roubam e que a política é uma coisa ruim.

Como dizia Rousseau: “Uma sociedade só é democrática quando: ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém for tão pobre que tenha de se vender a alguém”.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com

domingo, 6 de julho de 2014

O abismo do passado ronda o presente nas próximas eleições nacionais


Caros amigos todo cuidado é pouco. A vitória da oposição significa a volta dos tempos das trevas. Sem emprego, sem casas, sem universidade para os filhos dos pobres e pessoas negras, sem médicos e principalmente a volta do FMI e dos EUA mandando no país. Por quê? Vou tentar explicar em poucas palavras.

Lembro como se fosse hoje, quando voltamos de São Bernardo do Campo para Belo Jardim em Pernambuco, a cidade que nascemos, depois de 10 anos de tempos muito complicados.

Meu avô paterno, que por sinal era irmão do meu avô materno, era uma figura fantástica. Certo dia, ao perceber que eu me interessava pelas questões políticas, me chamou de lado e me disse: “Meu filho, tome muito cuidado, pois aqui nessa cidade, até os sinos batem: ladrão, ladrão, ladrão...”. Num primeiro momento achei muito engraçado o que acabara de ouvir, mas aos poucos fui entendendo o que ele quis me dizer e a preocupação para que eu não me juntasse aos políticos tradicionais da cidade. Todos “bichados” no seu entendimento.

Só para se ter uma ideia, na época na cidade tinha apenas a Arena 1 e a Arena 2 e só depois de muito tempo é que o MDB começou  a ser criado. Os políticos de carreira locais estavam todos perfilados na Arena. Brigavam na frente do povo, no sentido de mostrar que eram diferentes, mas longe dos olhos da população defendiam a mesma coisa e eram coniventes com tudo que dava sustentação à ditadura militar. Apenas brigavam por aquele espaço de poder.

Nessa época, nos idos de 70, era proibido pensar e principalmente agir. Algo como o cenário descrito no filme “1984”. A polícia do pensamento, representada pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e o SNI (Serviço Nacional de Informação), com base na LSN (Lei de Segurança Nacional), podia estar em toda parte. Enquanto havia padres que resistiam e lutavam pela democracia, seguindo o caminho de D. Helder Câmara e eram tratados como subversivos, tinham outros que faziam o triste papel de espiões e entregavam suas “ovelhas” para os torturadores. As pessoas iam se confessar e de repente sumiam e ninguém nem imaginava o que acontecera com elas. O inferno deve tá cheio deles.

Quando resolvi naquele ano, incentivado pelo Padre Reginaldo, apoiar para Senador, Marcos Freire do MDB, sem perceber tinha escolhido meu caminho ideológico. A partir de então, estava pronto para lutar por liberdade, justiça e igualdade para todos e todas.

Meu avô Sebastião, podia não ter convicção de esquerda e direita, mas tinha a percepção de que aquelas figuras que oscilavam no poder, não o representavam. Isso era o bastante para ele saber o que estava falando.

As próximas eleições nacionais, não podem ser encaradas como mais uma no processo democrático, pois carregam um símbolo de ruptura com passado e principalmente compromisso com o futuro. As diferenças são tantas que parece outro país, se comparado com o de doze anos atrás, quebrado, endividado e servil, tanto aos EUA, como principalmente ao FMI e ao Clube de Paris.

Em regras gerais, a luta concreta será contra os antigos colaboradores da ditadura, ou ainda contra os travestidos de democratas, porém de corpo e alma na “Casa Grande”, com propostas neoliberais no sentido de fortalecer o “Estado Mínimo”. Querem de volta o Exército Industrial de Reserva, que é aquela massa de desempregados, que os ajudam a controlar o mercado.

Nas entrelinhas o que está jogo é a qualidade de vida de uma enorme parcela da população brasileira, que enquanto os representantes da “Casa Grande” estiveram no poder central, trataram essa parcela do povo brasileiro como “Senzala”, suprimindo direitos básicos e conquistas históricas, aprofundando cada vez mais o processo de desigualdades e de exclusão econômica e social.

De um lado, Dilma e seus aliados representa a continuidade dos avanços econômicos e sociais que o país está colhendo desde 2003 e do outro, os demais candidatos que concorrem ao cargo, representam a volta ao passado, no sentido de fortalecer os latifundiários, o grande capital e a ameaça constante de intervenção nas conquistas dos trabalhadores. O homem de economia do candidato Aécio Neves já anunciou: “O salário mínimo no Brasil está muito alto”.
Lula e Dilma Roussef promoveram mais de 100 Conferências Nacionais e tornaram os principais Conselhos Nacionais em deliberativos. Uma clara demonstração de quem não tem medo da população organizada e nem de gestão participativa.

Como disse o Ex-Presidente Lula em recente entrevista à Revista Carta Capital, estamos vivendo uma grande revolução silenciosa. Ele pergunta: “Como explicar que em 100 anos o Brasil conseguiu chegar a 3 milhões de estudantes em universidades e nos últimos 12 vamos chegar a 7,5 milhões? Ou ainda que de 1909 até 2002 fossem construídas apenas 140 Escolas Técnicas e nos últimos 12 já foram 422, ou seja, três vezes o número alcançado em um século, além de 18 Universidades Federais e 146 Campis”.

Nesse legado a serviço da população mais frágil existem números impressionantes. Vamos a 13 deles:
  1. Números do Projeto São Francisco:
    • 110 mil operários empregados
    • 60% de execução das obras
    • Mais de 3 mil máquinas em funcionamento
    • Projeto orçado em 8,2 bilhões de reais
    • 477 km de extensão formando dois canais
    • 12 milhões de pessoas beneficiadas
    • 9 estações de bombeamento
    • 27 reservatórios
    • 4 túneis de transporte de água
    • 14 aquedutos
    • 390 cidades receberão água do projeto nos estados de: PE, CE, PB e RN
    • 38 programas ambientais
    • 1 bilhão investidos em ações socioambientais
    • A cada 1 real investido, outros 3 são aplicados em obras para garantir a segurança hídrica no nordeste
  2. O Programa Ciências Sem Fronteiras abriu oportunidades para 65 mil jovens estudarem no exterior.
  3. 75% dos Royalties do Pré-Sal destinados à educação.
  4. O Pronatec deve chegar até o final desse ano a 8 milhões de pessoas formadas.
  5. O programa Mais Médicos conta hoje com 14 mil profissionais, sendo 9 mil estrangeiros e atuando nos mais distantes pontos do país.
  6. Em 2002 tínhamos 36 milhões de passageiros de avião hoje são 112 milhões.
  7. Em 2003 o Brasil era a 15ª Economia do Mundo e hoje é a 6ª. Subimos 9 postos com Lula e Dilma.
  8. De 2003 a 2013 o Salário Mínimo teve um aumento real de 72,35% acima da inflação. Com FHC valia 112,23 dólares e em 2014 valerá 364,25.
  9. Em 10 anos o Luz para Todos já beneficiou 15 milhões de brasileiros.
  10. O Programa Bolsa Família atende hoje 13,8 milhões de famílias, beneficiando 50 milhões de pessoas. 75,4 dos beneficiários estão no mercado de trabalho.
  11. Nos últimos doze anos foram gerados 20 milhões de empregos com carteira assinada.
  12. Números do Programa Minha Casa Minha Vida: 3.408.184 Contratados – 1.465.321 em Obras – 2.038.704 Concluídas e 1.702.070 Entregues.
  13. As Cotas Raciais e de Renda são um sucesso, inclusive com médias superiores a dos não cotistas.
A vitória de Dilma em 2014 significa nada mais, nada menos que a continuidade da ascensão da população pobre desse país e isso na prática significa oportunidades concretas para quem nunca teve. Sua derrota significaria a volta da exclusão e o aprofundamento das desigualdades que reinaram por 502 anos na história do país.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com


terça-feira, 1 de julho de 2014

Precisamos de uma nova forma de governar


No último final de semana estive ministrando o Curso Plano de Governo e Ações para Governar da Fundação Perseu Abramo, em Santo Antonio do Pinhal. Uma estância turística cravada na Serra da Mantiqueira.

Como toda cidade pequena, Santo Antonio carrega um charme particular. A maioria da população se conhece por nome. Isso faz com que fique mais transparente o pensamento e a prática das pessoas. O povo praticamente se junta nos cultos, nas missas e principalmente nas festas. Imagino que deva ser lá também que os comentários são plantados e a vida da cidade vai sendo contada.

Diversas coisas me chamaram a atenção. Em primeiro lugar a dificuldade de se fazer gestão participativa na cidade, apresentado por alguns gestores participantes, porém, com mais ênfase pelo Prefeito Junior, que de forma gentil esteve conosco o tempo inteiro. Todos afirmaram que numa cidade como aquela era quase impossível as pessoas se dispuserem a vir num evento, seja ele o que for. Não me dei por vencido e fiz durante o curso, diversas provocações.

Em segundo, uma frase dita por uma das gêmeas que trabalham num restaurante que almocei antes do jogo do Brasil e que fica ao lado da pousada que estava hospedado. Ao conversamos, ela foi logo perguntando se eu estava a trabalho e eu lhe disse que sim num curso com os gestores da prefeitura. Ela ficou entusiasmada para ir, sendo que o que a impedia ela e a sua irmã, vinha do fato de trabalharem de manhã à noite no restaurante. Seu interesse vinha do fato de ambas serem do Conselho Municipal de Juventude e queriam aprender um pouco mais sobre o que estava em jogo. No meio da conversa ela me disse: “Precisamos de uma nova forma de governar”.

Foi uma frase que adorei ouvir, pois mesmo sem ela saber, foi esse tema que deu origem a esse curso que desenvolvi para a Fundação Perseu Abramo. O tema daquela palestra proferida no segundo semestre de 2012, na Prefeitura de Teixeira de Freitas na Bahia, a convite do amigo Dr. Paulo Sergio da Associação Transparência Municipal de Salvador e do Prefeito João Bosco, foi: “Em busca de uma nova forma de governar”. Algo que as pessoas associam como uma mudança radical, principalmente na relação entre governo e sociedade, buscando se distanciarem da bandalheira da corrupção de atinge inúmeras prefeituras e que tem um custo estimado de 85 bilhões de reais por ano. Mesmo sem saberem, as pessoas desejam serem convidadas para participar, isso seria justamente para que se cumpra o direito constitucional de Participação e Controle Social, por parte da sociedade organizada em suas entidades.

Em curso, fomos contemplados com a presença de um jovem, que mesmo com algumas confusões, como é peculiar, como por exemplo, desconhecer que cada Partido Político vem ou nasce de uma concepção ideológica, nos brindou com sua inquietação. Disse-lhe entre outras coisas, que o mais importante não era ele se filiar a partido nenhum, enquanto tivesse dúvidas quanto ao seu papel nele, mas sim o de ser o elo de ligação entre jovens rebeldes da cidade e a luta concreta para se mudar a sociedade.

O mais interessante é que também uma frase do curso parece ter feito toda diferença para a compreensão do Prefeito na condução de uma gestão participativa. Ele dizia que teria que ter algo antes mesmo da concepção de um Fórum, seja ele de que segmento for e quando viu que uma das tarefas do governante é Educar a População para Participação, enxergou nela o ponto de partida para as tarefas necessárias na construção do que estamos chamando da “Arquitetura da Participação”, onde as mulheres, os jovens, as pessoas idosas, a luta pela igualdade racial e demais setores, sejam chamados e organizados através de seus Fóruns Representativos e possam contribuir na formulação e acompanhamento das Políticas Públicas, mesmo que nas primeiras reuniões venham apenas 10 ou 15 pessoas. Essas serão num futuro próximo, os agentes multiplicadores da mudança.

Enfim, esse curso, que já chegou a 28 cidades sedes, em 10 Estados, com 159 prefeituras presentes e mais de 1200 participantes, vai escrevendo, em detalhes, a vida de cada gestão onde o Partido dos Trabalhadores e seus parceiros estiverem presentes.

É sabido que qualquer caminhada começa com o primeiro passo. Assim, para o Governo de Santo Antonio do Pinhal ficaram as provocações sadias, no sentido de continuar o que já é bom, mas com a possibilidade de escrever e reescrever a história da cidade a várias mãos.


Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
Coordenador do Programa de Capacitação Continuada
em Gestão Pública da Fundação Perseu Abramo
toni.cordeiro1608@gmail.com