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terça-feira, 3 de maio de 2016

Que lições podemos tirar do golpismo

Antes de qualquer conversa é necessário que se esclareça que o golpe de estado em curso no Brasil se situa entre a ignorância política e o neoliberalismo disfarçado, comandado por uma trupe do mal que comungou com o golpe de 64, lutou contra as diretas já, aprovou várias leis e medidas contra o povo e outros que aderiram por puro oportunismo e enterraram de vez as convicções que diziam ter. Trata-se de uma modalidade moderna de golpe, pois ocorre no campo institucional e sem necessidade de envolver as forças armadas.

Outra questão tão importante quanto, é que essa intervenção moderna e de extrema direita, faz parte de uma nova fase do capitalismo mundial, visto que essa mesma prática ocorre nesse momento em várias partes do mundo capitalista, principalmente em vários países da América Latina, no sentido de conter o avanço das forças progressistas e intervir nas conquistas trabalhistas e os avanços de setores que sempre estiveram excluídos da sociedade.  

Para o bem e para o mal, o triste episódio do último dia 17 de abril ficou marcado na história do país, primeiro pelas aberrações que vimos e ouvimos dos defensores do “sim” e segundo pelo fato de que jamais teria ocorrido algo semelhante se o país estivesse sendo governado pelo PSDB e seus aliados neoliberais. Podemos afirmar que só ocorreu a aceitação do impeachment porque é o PT que está no comando e corre-se o risco de Lula voltar como presidente em 2018. Isso levou os agentes da casa-grande ao tudo ou nada.

Estamos falando de um daqueles momentos que chegamos a sentir vergonha de sermos humanos, tamanha a farsa e a hipocrisia. Tamanha a montagem amadora para velhos profissionais da política. Por outro lado o episódio mostrou como é fácil enganar grande parte da população, pois se assim não fosse os bizarros personagens legislativos seriam outros.

É importante salientar que se trata de um enfrentamento de classe e de medição de forças e pouco tem a ver com a competência da Presidenta Dilma e muito menos com o combate à corrupção. É na verdade um embate ideológico pela disputa do projeto que está em curso e o que a burguesia quer em substituição, a mando principalmente do capital internacional.

O que imagino ser de grande relevância avaliar, principalmente no campo da organização política e social, é o fato do país ter eleito um Congresso tão sinistro como esse, composto por mais da metade de parlamentares com grandes dívidas com a tal da justiça, quase metade ser da bancada milionária, além de mais da metade representar o latifúndio, num país eminentemente urbano. Isso sem contar, que num país de trabalhadores a maioria deles representa a bancada empresarial e muito pouca representação trabalhista, o que mostra também uma enorme fragilidade e desconexão com a realidade das entidades sindicais e a escassez de novas lideranças.

Um cenário ideal para o golpismo. Uma grande oportunidade para os golpistas rasgarem a CLT, junto com a Constituição e de quebra terem milhares de pessoas alienadas, cheias de ódio ao PT, aprovando seus atos e pedindo a volta da ditadura. O golpismo tem como grande suporte ideológico o PIG - Partido da Imprensa Golpista, que se comporta como protagonista do pensamento neoliberal e por outro lado mostra o grande erro do governo federal, de não ter criado regras para os meios de comunicação.

O fato mais grave é que essas criaturas do pobre e falido poder legislativo só se sai bem e fazem o que bem querem porque grande parte da justiça de fato é cega, surda e muda para as ocorrências com quaisquer pessoas ligadas ao PSDB e seus aliados, pois se forem ligadas ao PT, a eles simplesmente a lei.

A primeira lição que fica vem do fato do governo federal não ter investido na comunicação alternativa, como as Rádios e TVs Comunitárias, por exemplo, ou ainda a criação de um canal exclusivo com repercussão nacional, como fez a Venezuela e outros países governados pela esquerda.

A segunda lição a ser aprendida é saber que cada vez que um prefeito ou prefeita, governador ou governadora e principalmente um presidente ou presidenta faz alianças mercantilistas ao invés de programáticas, ficam reféns de oportunismos e oportunistas e só conseguem caminhar em seus mandatos, a custa de muitos cargos e/ou de muito dinheiro.

A terceira lição é reconhecer publicamente que a democracia representativa em curso agoniza. Encontra-se em estado terminal. A maioria dos eleitos do Congresso, com votos e apoio da população pobre, representa exatamente seus opositores, ou seja, o grande capital e dia a dia vai delapidando direitos trabalhistas, dos índios, dos quilombolas e principalmente os direitos sociais, que os classificam como gastos sociais e não como um dever do Estado.

A quarta lição é enxergar e entender que o grande enredo de fundo do golpe em curso é o controle absoluto do processo econômico do país. Querem novamente um exército industrial de reserva (contingente de desempregados), que possibilite o controle salarial e trabalhista. São atores políticos com a missão de facilitarem o acesso americano na gestão do pré sal e das reservas florestais, por exemplo. Além disso, pretendem aprovar os mais de 50 projetos que delapidam todas as conquistas e avanços dos últimos 100 anos, entre eles, a terceirização geral, a mudança de curso dos Projetos Sociais, além do fim do SUS e a prioridade absoluta ao ensino privado.

A quinta lição é entender o processo.  Ou se governa com o povo, respeitando suas organizações e incentivando a criação de outros instrumentos participativos e criando oportunidades de ouvir a população, ou tem que apostar na identidade das lutas, como é o que esta ocorrendo neste momento. O povo está nas ruas, muito mais por entender a gravidade dos fatos e o tamanho do prejuízo que pode ocorrer na tão frágil democracia do que pelo fato de ter sido ouvido ou ser protagonista no processo de governança.

A sexta lição vem das ruas nos mandando um recado. Se por um lado nunca vimos tantos e tantas fascistas e zumbis de direita juntos defendendo o golpe e contra a democracia, por outro vemos milhares de jovens, mulheres, negros, brancos, índios, quilombolas e trabalhadores de várias categorias, unidos se manifestando no Brasil e em várias partes do mundo contra o golpe, contra a mídia partidária e golpista e pela manutenção plena da democracia. Ou seja, o povo que luta pelos direitos, por liberdade e por uma sociedade justa, fraterna e igual para todos e todas, organizado ou não, sempre esteve lá aguardando ser chamado à participação. Que isso sirva de lição.

A sétima lição é a de que o golpe de estado em curso vai revelando a cara e a intensão de seus articulistas, como a traição e a falta de compromisso com a boa política. Fatos esses criados no seio das alianças mercantilistas, onde por um cargo ou uma parcela de poder vale tudo. Isso mostra duas realidades. A primeira é a de que se faz necessário capacitar e formar politicamente a população, principalmente no sentido de seus direitos e para que exerçam melhor o direito de votar e a segunda é de que juntar gente “boa de voto” para ganhar eleições pode levar ao atoleiro, como estamos vendo na atualidade.

A partir dessas constatações ficam algumas inquietações no ar. Como mudar essa realidade? Será via institucional ou via enfrentamento? O que virá após o golpe? Como resgatar alguns valores perdidos?

Creio que só será possível estancar esse cenário golpista com um enfrentamento organizado, seja no campo, nas cidades, nas redes, mas principalmente nas ruas, que em nome da democracia e da mudança da sociedade, mostre aos envolvidos que a luta é por uma causa e não apenas pela manutenção do governo ou de mandatos. Caso contrário, o país corre o risco de voltar pelo menos uns 100 anos na história. Seja o que for que virá, ou aprendemos e enfrentamos os erros ou eles poderão vir com muito mais vigor.  

Há de se entender, que se for para moralizar de fato esse país, uma das coisas que tem que acabar é com o profissional de mandatos. Aquela criatura que uma vez vereador, deputado ou senador, não quer mais largar o osso, quer morrer grudado no cargo. Essa prática, além de perniciosa, intervém diretamente de forma negativa, no surgimento de novas lideranças. É como se os eleitores necessitassem sempre de heróis ou heroínas e não de lideranças construídas no âmbito da participação.

A democracia representativa só sobreviverá se acabarem as candidaturas eternas e as pessoas eleitas tiverem bases participativas de fato e de direito, principalmente para se cumpram na prática os direitos constitucionais de participação e de controle social de todas as políticas públicas. Um dos caminhos para isso é criação e organização dos conselhos de mandatos.

A realidade nos mostra que a partir desse momento, nenhum de nós, nenhum partido, nem mesmo o país será o mesmo, pois grande parte da população busca luz enquanto outra parte caminha para as trevas e conta às lendas que quando estamos bem intencionados e bem acompanhados, todos os caminhos levam à luz e para lá que estou indo.

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
tonicordeiro1608@gmail.com

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