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sábado, 23 de julho de 2016

A presidente do FMI afirma que os velhos vivem demais...

O que pode ser novidade a essa altura do golpe? Apenas as desgraças futuras, que o “mordomo de filme de terror”, como chamou Renan, promete se solapar de vez o governo. Uma coisa boa nessa história é que ele não esconde nada. Declara publicamente, sem o menor constrangimento, a quem serve e o que pretende fazer para restaurar o poder da casa-grande, além de servir como espião aos Estados Unidos, onde ofereceu, além da vinda das empreiteiras americanas, a gestão do petróleo brasileiro. Algo impensável há pouco tempo.

Acompanhei de longe a resistência do povo turco, que evitou um golpe de estado e aí me dou conta de como grande parte da população brasileira é atrasada em termos de consciência política, direitos constitucionais e principalmente sobre o papel institucional da sociedade organizada no que se refere à participação e controle social de todas as políticas públicas. Esse setor da sociedade age como ventríloquos da mídia golpista e escolhem seus representantes, vezes pelo coração e outras tantas por desprezo e em ambos os casos, muito longe da razão. É melhor votar nulo do que por desprezo.

Voltando para a crise política atual, acredito que estamos pagando muito caro pelos governos Lula e Dilma não terem feito às reformas necessárias quando as condições eram totalmente favoráveis, além de mais caro ainda, pelo fato de ambos os governos não terem investido pesado nas mídias alternativas, como por exemplo, a radiodifusão comunitária, onde milhares de Rádios e TVs poderiam estar contando o que o PIG não conta, assim como fazer a defesa de um governo eleito democraticamente, que foi sorrateiramente solapado.

O Vampiro Temer é apenas um condutor de um barco desgovernado que foi roubado de seu verdadeiro dono, porém quem pensa estrategicamente para onde esse barco deve caminhar e com quem dentro dele, são as forças do capital internacional, aliadas a elite brasileira devassa que se acostumou a ser servida e uma leva de empresários que enxergaram no golpe uma ótima oportunidade de rasgarem a CLT e mexerem em conquistas que até então pareciam imexíveis.

Quero chamar a atenção nesse artigo para o fato de que toda crise gera um estado de tensão e uma profunda ruptura na arte de sonhar. Mesmo tendo consciência clara do processo e sabendo que se trata de mais uma reciclagem do capitalismo, em alguns momentos também embarco no túnel do tempo e reviro o passado em busca de alguma luz no fim do túnel.

Foi numa dessas viagens que recorri a Paulo Freire para tentar entender o que ele chamava dos “Condenados da Terra”, que na prática são os excluídos e as excluídas da sociedade e com isso tentar dimensionar a responsabilidade que a militância de uma causa nos obriga a ter.

É bom que se entenda, que dirigentes de entidades, candidatos e candidatas ao legislativo e executivo, representantes de qualquer ordem e principalmente quem se consideram lideranças, mexem e muito, às vezes sem nenhuma permissão, com os sonhos das pessoas, com as fantasias expressas na possibilidade de mudança na qualidade de vida e é essa expectativa que faz com que elejam seus pretensos representantes.

A indignação de grande parte da sociedade, com ou sem consciência política, vem do fato de se sentirem lesados e lesadas pelos seus representantes. Sentem-se enganados e buscam um ponto de referência para a mudança. Daí, ou encontram falsos líderes que tentam lhes vender terra no paraíso ou ainda velhos e novos políticos que quer apenas se dar bem e novamente o paraíso como recompensa. A partir dessa constatação dá para entender o que são as famosas “garrafinhas” na vida política?

Tenho afirmado que a sociedade está doente. A cada dia nasce seus estereótipos. Por sua vez o capitalismo não foi, não é e nunca será uma alternativa econômica. Suas crias continuam a desprezar a humanidade.

Como não se indignar, por exemplo, com a declaração da Presidente do FMI Christine Lagarde (uma pessoa também velha), quando afirma que “os idosos vivem demais e são um perigo”? Como não ficar possesso com a declaração de outro ser desprezível, Rimantė Šalaševičiūtė, ministra lituana da Saúde, membro do PSD Lituano, que declarou pouco depois de tomar posse, em 2014, que a eutanásia deveria ser considerada como uma boa opção para os pobres que não podem pagar os cuidados de saúde.

Para o capitalismo bom mesmo seria matar aquelas crianças que nascem com algum tipo de problema e desnutridas, assim como se encurtar a vida de pessoas idosas, pois em ambos os casos o custo-vida para o capitalismo selvagem é muito alto. Julga-se a humanidade a partir de números e de resultados. É a teoria do ter versus a do ser. É por exemplo, a teologia da Prosperidade versus a da Libertação.

Um estudo recente divulgado no último dia 8 de julho pelo FMI, alerta que em 2035, cerca de 20% da força de trabalho em Portugal será considera “velha”. O valor representa um aumento explosivo, pois atualmente esse número é de 14,9%, sendo que na Espanha, Itália e Grécia irá mais que duplicar.

O mais assustador é que a preocupação dos técnicos do FMI, representantes do capitalismo selvagem, expressa no documento citado acima, não vem do fato de que poderá haver um desequilíbrio em termos oportunidades de trabalho e consequentemente de sobrevivência, mas que essa mão de obra “velha” vai reduzir o crescimento da produtividade e aumentar o custo social.

Cita ainda o documento que o envelhecimento da força de trabalho, que caminha de mãos dadas com o envelhecimento da população e com o declínio da natalidade, “será provavelmente um empecilho significativo ao crescimento da produtividade durante as próximas décadas”.

O que me interessa nessa conversa é saber até que ponto seremos capazes de libertar o povo para que tomem suas próprias decisões de forma consciente, sem usá-lo, seja como mão de obra barata ou ainda como “garrafinhas”, que se traduzem em “massa de manobra” para os politiqueiros de plantão.

O mais trágico é que a capacitação e a formação política como antídoto a esse processo de desigualdade acabam sendo algo “subversivo”, infelizmente até mesmo em setores da chamada esquerda brasileira, pois ao libertar pode se criar uma competição, principalmente aos eternos candidatos.

Paulo Freire em seu Livro Pedagogia da Autonomia faz um alerta: “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo”.

Referências:



Sobre a Eutanásia: http://www.jornaltornado.pt/eutanasia-pode-ser-opcao-pobres/ 

Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública Social
tonicordeiro1608@gmail.com

terça-feira, 5 de julho de 2016

Antes sonhar com o impossível do que fantasiar com o que sequer existe

Muitos acontecimentos na vida política do país e na nossa região de Campinas têm me preocupado nos últimos tempos, pois o que está em jogo não é a vida de fulano ou ciclano e sim o destino de um partido que fez história.
Como o brasileiro não tem cultura partidária e não consegue entender que não há democracia sem partidos, joga tudo no sujeito partidário e não em quem usou e usa as siglas para seus interesses pessoais e a saga de poder. O que deveria ser de fato discutido é qual é o projeto politico-ideológico que esse ou aquele partido defende, pois aí saberíamos de que lado está ou a quem serve.
De antemão quero destacar o PT de Campinas que com todos seus problemas e disputas internas, amadurece e por unanimidade lança o nome de Marcio Pochmann para prefeito, com uma vice mulher e com composição paritária. Algo inovador num país de herança machista entranhada no nosso dia a dia.
Quero iniciar essa conversa me perguntando até que ponto a militância política cresceu nos últimos anos que a fizesse defender com clareza uma causa? Até que ponto quem se considera liderança não usa ainda sua base política como verdadeiras “garrafinhas”, que servem apenas para votar? Até que ponto o Partido dos Trabalhadores cresceu, que possibilite rejeitar candidatos e candidatas que transformam seus mandatos em mandatos de resultados, como se fossem gestores de empresas privadas? Estamos preparados para substituir os candidatos eternos? Trabalhamos nossas bases para a renovação?
São muitas perguntas em busca de novas respostas. Quem vive a vida partidária passo a passo não pode se deixar contaminar por essa ou aquela conduta, que nada tem a ver com as comuns divergências das sadias linhas de pensamento, onde só o PT tem. Quem não aceita isso é porque quer o partido só para si para atender suas necessidades e aí a luta será dura.
Numa visão mais geral, há de notar que a vida politica do país passa por uma verdadeira convulsão social. De um lado alienados e alienadas em fúria marcham para o precipício, sem ao menos se darem conta que estão sendo massa de manobra de malafaias, bolsonaros, cunhas e tantos outros calhordas e do outro um movimento que ressurge das cinzas, diversificado, com pouca origem partidária, porém com um cunho ideológico muito claro. Lutar pela manutenção da democracia e da liberdade política.
O que se faz necessário e urgente é discutir com esses movimentos e com os grupos que vão se organizando, se esse momento para eles representa o sonho de mudanças profundas na sociedade ou apenas a fantasia do enfrentamento que poderá morrer quando a primeira barreira for rompida.
Uma das diferenças entre sonhar e fantasiar, é que enquanto sonhar requer um caminho a trilhar que pareça viável, mesmo que leve tempo, fantasiar caminha na velocidade do vento, sem direção e com a sensação de que de fato aconteceu. Enquanto sonhar nos compromete e nos responsabiliza por às vezes nos distanciar dos sonhos por pura distração, fantasiar se constrói na calada dos nossos silêncios, muitas vezes de forma irresponsável. Enquanto os sonhos nos alimentam, a fantasia nos engana de que estamos alimentados.
Embarco nessa abstração para tentar moldar no campo da militância política, quem milita por uma causa e quem é levado pelas fantasias de alguém. Quem age impulsionado pelas escolhas conscientes e quem age apenas por interesse no que chama de poder, ou ainda para alimentar o ego e os sonhos sejam de quem for.
A meu ver, os desencontros contidos numa sociedade de desiguais e manipulados pela fantasia dominante, leva grande parte da população a enxergar sonhos como ilusão, enquanto fantasiam sem compromissos e sem responsabilidades, compondo um cenário do faz de conta, seja por ação ou por omissão. Não vivem de fato a vida, são apenas levados por ela.
Essa viagem ao faz de conta seduz, não só os que poderiam ser considerados como alienados e alienadas, mas infelizmente também o universo de instituições como sindicatos, partidos, organizações não governamentais e principalmente o universo político eleitoral, onde a extrema maioria decide uma eleição pura e tão somente pela emoção e muito longe da razão.
Toda vez que uma pessoa vai à urna votar apenas porque é obrigado, age ou por desprezo, induzido por uma mídia viciada e partidária, e assim vota em qualquer um ou uma ou ainda vota por pura paixão, achando que seu candidato é o melhor, sem ao menos conhecer suas reais intensões. O resultado é esse Congresso Nacional espúrio. O mais conservador e reacionário da recente história do país. Ou seja, a pessoa desinformada não constrói e sim é levada a construir sonhos alheios ou ainda embarcar na fantasia que não lhe pertence.
Como dizia Paulo Freire, sonho com uma sociedade se reinventando de baixo para cima, onde, a partir de um processo anárquico consciente, questione-se e peite-se toda forma de poder exercido de cima para baixo. Nesse processo, mais vale um ano de experiência popular do que cinquenta anos de vida política, dedicada ao próprio ego. 

Mesmo que a democracia representativa fosse apenas o ato de votar, defendo que as pessoas exerçam esse direito sem serem manipuladas ou conduzidas como as garrafas são num caminhão de entrega.
O ato de sonhar começa a se materializar no exato momento da revolta e se concretiza quando as pessoas dizem não a qualquer sistema que oprima e alimente o poder de alguns e algumas contra a maioria que se faz conduzida.
Na vida real sonho e fantasia se completam, porém na vida política a fantasia afasta a possibilidade da luta concreta e aí acaba virando um pesadelo.
Que tal transformarmos as "garrafinhas" num exército de homens e mulheres que dirão sim para o que sonham e não para as fantasias seja de quem for?
Antonio Lopes Cordeiro (Toni)
Pesquisador em Gestão Pública e Social
tonicordeiro1608@gmail.com